Manaus, 04 de janeiro de 2026 – A abdução do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, realizada neste sábado (03/01/2026) sem mandato internacional, desencadeou uma onda de reações globais. Entre elas, imagens de venezuelanos comemorando em diferentes partes do mundo passaram a circular intensamente nas redes sociais. A partir dessas cenas, consolidou-se um argumento repetido à exaustão: “se há gente celebrando, então a intervenção foi boa”.
Esse raciocínio, além de raso, ignora deliberadamente o contexto histórico, político e humanitário da Venezuela — e confunde reação emocional legítima com legitimação moral, política e jurídica de uma ação de força conduzida por uma potência estrangeira.
É evidente que muitos venezuelanos comemoraram. Seria estranho se não comemorassem. Trata-se da queda de um governante associado a anos de autoritarismo, repressão, colapso econômico e êxodo em massa. A celebração, porém, não diz absolutamente nada sobre a legalidade da intervenção, sobre seus objetivos reais ou sobre seus efeitos concretos para a população que permaneceu no país.
A crise venezuelana é real — e não começou ontem
A deterioração da qualidade de vida na Venezuela é amplamente documentada por organismos independentes e pesquisas acadêmicas, muito antes da operação militar anunciada pelos Estados Unidos.
O Relatório Anual do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH, 2023 e 2024) descreve um cenário persistente de colapso de serviços públicos, restrições sistemáticas a direitos civis e dificuldades severas de acesso à saúde e à alimentação.
A Pesquisa Nacional de Condições de Vida (ENCOVI 2023), conduzida pela Universidade Católica Andrés Bello, aponta que mais da metade da população vive em pobreza multidimensional, combinando perda de renda, insegurança alimentar, precariedade habitacional e exclusão de serviços básicos.
Já o Relatório Mundial da Human Rights Watch (2024) documenta prisões arbitrárias, repressão a opositores e enfraquecimento do Estado de Direito, enquanto a Anistia Internacional, em seus relatórios de 2023 e 2024, destaca o impacto direto da crise institucional sobre populações vulneráveis, incluindo mulheres, indígenas e idosos.
Estudos acadêmicos publicados em periódicos como o International Journal of Epidemiology (2019) e relatórios da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS, 2022) associam o declínio da expectativa de vida e o reaparecimento de doenças evitáveis à desestruturação prolongada do sistema público de saúde. Nada disso começou com a intervenção militar dos EUA. E nada disso se resolve automaticamente com a retirada de um presidente.
Os embargos e sanções internacionais ajudam a agravar a crise venezuelana, mas não a explicam por si só, nem cronológica nem estruturalmente. A deterioração da economia, dos serviços públicos e das condições de vida começou antes das sanções mais duras impostas a partir de 2017.
Décadas de má gestão econômica, dependência quase absoluta do petróleo, desmonte institucional, captura política das estatais, corrupção sistêmica e repressão a mecanismos básicos de controle e transparência corroeram a capacidade do Estado de garantir bem-estar à população.
É justamente daí que vem o cansaço moral de um povo que gritou por ajuda durante anos e foi tratado como nota de rodapé geopolítica. A Venezuela virou um campo de disputa simbólica, enquanto milhões de pessoas tentavam simplesmente sobreviver. Isso explica, em grande parte, a festa vista neste sábado. E que precisa ser entendida.
O sofrimento cotidiano — a humilhação de não conseguir alimentar os filhos, a angústia de ver hospitais sem condições mínimas, a erosão lenta da dignidade — foi frequentemente relativizado em nome de alinhamentos políticos, discursos anti-imperialistas seletivos ou disputas ideológicas travadas longe da realidade concreta das ruas venezuelanas.
Essa negligência não veio apenas das potências tradicionais. Governos e setores da esquerda internacional, que historicamente se apresentam como defensores dos mais pobres, também falharam ao tratar a crise venezuelana prioritariamente como uma questão de legitimidade de governo, e não como uma tragédia humana. Em muitos casos, a defesa abstrata da soberania e do projeto político se sobrepôs à escuta do povo real — aquele que não aparece em cúpulas, fóruns ou discursos, mas que paga o preço das decisões erradas todos os dias.
Há um limite ético que não pode ser ultrapassado. Projetos políticos existem para servir às pessoas, não o contrário. Quando a defesa de líderes, partidos ou movimentos se torna mais importante do que a qualidade de vida da população, algo essencial se perde.
A esquerda, se pretende continuar sendo uma força transformadora e não apenas identitária, não pode aceitar que o sofrimento seja tratado como dano colateral aceitável. Ignorar o clamor do povo venezuelano em nome de coerência ideológica não foi apenas um erro político — foi uma falha humana profunda.
A queda de Maduro não significa mudança de regime
Outro ponto sistematicamente ignorado pelo discurso celebratório é que apenas Maduro caiu. O regime político chavista, até o momento em que escrevo este artigo, permanece. As instituições seguem fragilizadas, as forças armadas continuam sendo o principal pilar de sustentação do poder e a sucessão formal recai sobre Delcy Rodríguez, vice-presidente e figura central do mesmo grupo político que governava o país até então.
As próprias declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deixaram isso explícito. Ao afirmar que “tudo pode permanecer como está” desde que haja cooperação, Trump sinalizou que a prioridade não é uma reconstrução democrática liderada pelos venezuelanos, mas sim estabilidade sob termos impostos externamente — com menções diretas ao controle e à exploração do petróleo venezuelano. Ou seja, se os chavistas cederem, tudo fica como está e dane-se o povo.
Essa lógica desmonta qualquer narrativa de libertação. O que se observa é uma remoção seletiva de uma figura, sem desmonte das estruturas que produziram a crise — e sem qualquer garantia de que os direitos básicos da população serão restaurados.
Além disso, quando a permanência de um governo passa a depender da anuência de uma potência estrangeira, o resultado não é soberania restaurada, mas substituição de dependência. O risco evidente é que decisões centrais — econômicas, energéticas e políticas — passem a responder menos às necessidades da população e mais a interesses estratégicos externos, aprofundando a sensação de alienação que já marcou a vida de milhões de venezuelanos. Com uma eventual fragmentação política interna, uma guerra civil é um perigo bastante plausível.
Celebrar não transforma uma violação em virtude
Aqui está o ponto central que precisa ser dito com todas as letras: o sofrimento real do povo venezuelano não legitima uma violação do direito internacional.
A Carta das Nações Unidas é explícita ao proibir o uso da força contra a soberania de outro Estado sem mandato multilateral. Essa não é uma regra opcional, nem relativizável por antipatia ou antipatia a um governante. A normalização desse tipo de ação cria um precedente perigoso, sobretudo quando praticado pelo país mais poderoso e intervencionista do planeta.
O argumento da celebração já foi usado outras vezes na história — e quase sempre para justificar atos que, mais tarde, cobraram preços altíssimos das populações envolvidas, como em guerras mundiais e holocausto. Vídeos de festa não substituem instituições, não constroem democracia, não garantem comida no prato nem medicamentos nas prateleiras.
Celebrar a queda de um déspota é humano. Transformar essa celebração em aval irrestrito para a força bruta é outra coisa. Se a regra passa a ser “funciona se alguém comemorar”, então nenhuma sociedade está protegida. Hoje é a Venezuela. Amanhã, qualquer país que se torne estrategicamente inconveniente. A história mostra que quando o arbítrio se normaliza, ele não se contenta com um único alvo.
O despotismo como método
Em poucos meses, duas canetadas de Donald Trump expuseram uma lógica que deveria preocupar qualquer sociedade que ainda leve a sério a ideia de limites ao poder. Em um ato administrativo, o presidente dos Estados Unidos perdoou Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras, condenado a 45 anos de prisão por tráfico de drogas em território norte-americano. Pouco depois, sem apresentação de mandado internacional ou autorização multilateral, ordenou a abdução de um chefe de Estado estrangeiro, sob acusações semelhantes.
O ponto central não é a figura de Nicolás Maduro, nem a gravidade dos crimes que lhe são atribuídos. A questão é o despotismo. A história demonstra, de forma reiterada, que déspotas são imprevisíveis, operam à margem de regras e tratam instituições como obstáculos descartáveis. A diferença, agora, é a escala. Nunca houve, na história moderna, um governante com tamanha concentração de poder militar, econômico e simbólico operando com tão poucos freios visíveis.
A ideia de que esse tipo de ação teria relação com democracia se dissolve diante das próprias palavras do presidente norte-americano, que associou publicamente a intervenção à exploração do petróleo venezuelano. Ainda assim, parte do debate insiste em justificar o episódio com base em afinidades ideológicas ou expectativas de alinhamento político. A experiência recente mostra o contrário. Aliados são descartáveis, como evidenciam os destinos políticos de figuras como Maria Corina Machado e Jair Bolsonaro, abandonados sem constrangimento quando deixaram de ser úteis.
Essa é uma característica clássica do despotismo: interesses pessoais e estratégicos se sobrepõem a qualquer compromisso estável, e lealdade nunca é garantia de proteção. Em um mundo onde decisões dessa magnitude passam a depender da vontade de um único líder, ninguém está realmente seguro — nem adversários, nem aliados.
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