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Em 2026, precisamos acabar com a escala 6×1 e as emendas parlamentares

Trabalhar até adoecer enquanto bilhões circulam sem transparência não é normal. Em 2026, em nome da sobrevivência e da civilidade, a sociedade precisa enfrentar a escala 6×1 e o atual sistema de emendas parlamentares

Manaus, 31 de dezembro de 2025 – Antes de qualquer desejo de boas festas, é preciso dizer algo que raramente aparece nas mensagens de fim de ano: é normal estar cansado. Cansado fisicamente, emocionalmente, moralmente. É normal sentir desgaste, frustração e até falta de esperança quando a vida se resume a viver para trabalhar, a contar horas de descanso como privilégio, enquanto o futuro parece sempre adiado.

Esse cansaço não é fraqueza individual. Ele é resultado direto de um sistema injusto, que exige cada vez mais do corpo e da mente de quem trabalha, enquanto uma elite política manipula bilhões do nosso dinheiro sem explicar como, para quem e com quais resultados. O esgotamento é social. A revolta também precisa ser.

O Brasil termina mais um ano tolerando duas violências estruturais que se alimentam mutuamente. De um lado, a exaustão institucionalizada no mundo do trabalho. Do outro, a opacidade institucionalizada no uso do dinheiro público. Ambas corroem a dignidade humana. Ambas afrontam a Constituição. Ambas dependem do nosso silêncio para continuar existindo.

Mais do que desejar esperança abstrata para 2026, este texto assume outro compromisso: transformar o cansaço em indignação consciente e a indignação em ação política real, dentro e fora das urnas.

A escala 6×1: desgaste por projeto

A escala 6×1 não é apenas uma forma de organizar o trabalho. Ela é uma mensagem cotidiana enviada ao trabalhador: seu tempo não importa. Seu descanso é secundário. Sua saúde é negociável. Sua vida cabe nos intervalos que sobram.

Não surpreende que tantas pessoas cheguem ao fim do ano exaustas, adoecidas, emocionalmente drenadas e sem perspectiva. Trabalhar seis dias para descansar um não é equilíbrio: é sobrevivência administrada. A ciência já demonstrou, de forma inequívoca, que jornadas prolongadas e descanso insuficiente aumentam o risco de doenças cardíacas, transtornos mentais, acidentes e morte precoce. Isso não é opinião, é evidência.

Entregadores de aplicativo trabalham na região do Centro do RJ. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Mas talvez o aspecto mais perverso da escala 6×1 seja o modo como ela naturaliza o sofrimento. Ela ensina que estar cansado é normal, que não ter tempo para viver é inevitável, que reclamar é ingratidão. Assim, o adoecimento deixa de ser visto como injustiça e passa a ser tratado como destino individual.

Ao mesmo tempo, estudos mostram que reduzir jornadas, garantir descanso real e respeitar limites humanos melhora a produtividade, reduz afastamentos e fortalece a economia. Persistir na escala 6×1, portanto, não é necessidade econômica. É opção política. Uma escolha deliberada de transferir os custos do sistema para quem tem menos poder de negociação.

Essas afirmações não são retóricas. O estudo “Global estimates of the burden of disease attributable to long working hours”, publicado em 2021 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), demonstra que jornadas excessivas elevam significativamente o risco de AVC e doenças cardíacas, sendo responsáveis por centenas de milhares de mortes todos os anos no mundo. Em termos diretos: o excesso de trabalho mata.

A afirmativa de que o fim da escala 6×1 prejudicaria a economia, propagada de forma sórdida e criminosa em recente editorial da mídia hegemônica é uma mentira escatológica. Experiências internacionais analisadas no estudo “The Productivity Effects of Reducing Working Hours” (2022), que avaliou testes de redução de jornada em países como Islândia e Reino Unido, mostram aumento ou manutenção da produtividade, menos afastamentos médicos e melhor qualidade de vida. Trabalhar menos, quando se trabalha melhor, não é atraso — é inteligência econômica.

O fato é que não há prosperidade possível construída sobre corpos esgotados.Não há futuro digno quando viver vira apenas recuperar forças para trabalhar de novo.

As emendas parlamentares: esforço nunca retorna

Enquanto milhões vivem nesse ciclo de exaustão, outra engrenagem opera longe do cotidiano da maioria: o sistema de emendas parlamentares. Bilhões de reais circulam todos os anos sem transparência proporcional à sua magnitude. Recursos públicos são direcionados, fragmentados e redistribuídos de forma tão opaca que o cidadão comum não consegue acompanhar o caminho do próprio dinheiro.

Enquanto população trabalha até o limite, bilhões em dinheiro público são manipulados sem transparência. Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

A gravidade desse modelo é apontada de forma direta pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) no relatório “OECD Integrity Review of Brazil”. O documento alerta que a falta de transparência no processo orçamentário compromete a confiança da sociedade nas instituições democráticas e amplia os riscos de corrupção. Em outras palavras: quando o dinheiro público desaparece do radar da sociedade, a democracia enfraquece junto.

Essa desconexão é devastadora. Trabalha-se muito, adoece-se muito, contribui-se muito — e não se vê retorno coletivo claro. Escolas continuam precárias. A saúde segue sobrecarregada. A infraestrutura básica falha. E ainda assim, o orçamento some em negociações que raramente passam pelo crivo público.

O problema das emendas parlamentares não é apenas técnico. Ele é moral e democrático. Quando o dinheiro público deixa de ser plenamente rastreável, a política deixa de responder à sociedade. Quando o orçamento vira instrumento de barganha, o mandato deixa de representar o interesse coletivo. E quando isso acontece, a democracia se esvazia por dentro.

Não é estranho, portanto, que tanta gente sinta desalento, raiva ou descrença. O sistema parece desenhado para sugar energia da base da sociedade e concentrar poder no topo. Essa sensação de injustiça é legítima. Ela não deve ser reprimida com mensagens vazias de otimismo. Deve ser canalizada.

Ato de convocação

Esta não é uma mensagem de conforto. É uma mensagem de convocação. 2026 precisa ser o ano em que a sociedade brasileira decida que não aceita mais viver exausta enquanto poucos decidem tudo no escuro. Que não aceita mais trabalhar até adoecer enquanto bilhões são manipulados sem transparência. Que não aceita mais a escala 6×1 como destino nem as emendas parlamentares como normalidade.

A indignação que sentimos agora pode virar apatia — ou pode virar combustível político. Pode se expressar nas urnas e nas ruas, nas cobranças públicas, na pressão organizada, no debate informado, na recusa em naturalizar o que é imoral.

Descansar não é privilégio. Transparência não é favor. Dignidade não é utopia. Que 2026 não seja apenas mais um ano. Que seja o ano em que a exaustão virou luta — e a luta começou a mudar o país.


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