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Se o final da COP30 não te preocupa, é porque você ainda não entendeu

Se o final sem acordo prático da COP30 não te deixou alarmado, é porque você ainda não entendeu a dimensão da crise climática. Tal qual a pandemia do coronavírus, essa nova crise também não negocia e não tem lado político. E o mundo acaba de dar a ela mais um ano para piorar

Manaus, 23 de novembro de 2025 – Eu deixei Belém no dia 20, antes do anúncio oficial do acordo final da COP30, muito apreensivo. Ao ler neste sábado (22/11/2025) que líderes globais mais uma vez foram incapazes de resolver o problema – eliminar os combustíveis fósseis e definir mecanismos de adaptação climática – fica assustadoramente evidente que o mundo, em sua maioria, ainda não entendeu a dimensão do que estamos enfrentando.

Também assusta a quantidade de notícias e publicações de diversos setores da sociedade, em especial imprensa e movimentos sociais, celebrando simbolismos abstratos. O maior deles é o reconhecimento de que afrodescendentes têm papel na luta climática. Ora, isso é óbvio e não é preciso que estrangeiros o façam! Esse tipo de simbolismo reconhece lutas importantes, mas, na prática, não salvarão nossas vidas e servem apenas como distração.

A COP30 também foi a confirmação do que já estava evidente ao longo de toda a cobertura: a presença brutalmente desigual de interesses comerciais dominou a conferência, enquanto a sociedade civil permaneceu, na maior parte do tempo, confinada ao lado de fora — literal e simbolicamente.

Corredores da COP30 tinham mais credenciados do setor petroquímico do que ativistas e cientistas. Foto: Fred Santana

A semana em Belém já indicava para onde o acordo caminharia

Enquanto eu ainda estava na cidade, acompanhando protestos, confrontos e disputas narrativas dos primeiros dias, ficou claro que a COP30 havia se tornado um palco onde vozes com mais dinheiro falavam mais alto.

No segundo dia do evento, registrei a tensão na porta do Hangar, quando houve invasão, confusão e confronto policial, algo que simbolizava exatamente o que acontecia lá dentro: gente tentando ser ouvida e encontrando mais barreiras do que portas abertas. O que vi nas ruas contrastava com os salões refrigerados onde circulavam representantes de governos e corporações.

Relembro também a apuração sobre a presença expressiva da indústria petrolífera: um em cada 25 credenciados trabalhava para o setor. Era uma proporção que, por si só, explicava muito da resistência em discutir a eliminação do petróleo e do carvão.

A cada matéria que eu publicava, ficava mais evidente como o ambiente estava longe de ser neutro — do Itaú liderando financiamentos de petróleo na Amazônia à participação de empresas acusadas de crimes ambientais em grupos regionais.

E, paralelamente, havia os cientistas tentando ser ouvidos, alertando que a crise climática pode disparar até duas pandemias por década. Eles falavam com dados; muitos negociadores, porém, respondiam com silêncio.

O silêncio sobre fósseis consolida o acordo como um retrocesso

Por isso, ao ler hoje que o acordo final omite qualquer referência aos combustíveis fósseis, eu não me surpreendi. Em Belém, desde a chegada das delegações, já estava claro que essa seria a disputa central.

Soube de várias fontes que a União Europeia tentou emplacar a linguagem sobre o abandono dos fósseis, mas enfrentou resistência feroz do Grupo Árabe, especialmente da Arábia Saudita. Quando saí de Belém, já se comentava que essa parte do texto cairia — e caiu. O governo brasileiro ofereceu uma solução paralela para salvar a aparência de consenso, mas não salvou o que de fato importa.

O resultado disso é o que vemos agora: um acordo que aumenta financiamento e propõe iniciativas voluntárias, mas que escolhe não enfrentar a causa direta da crise climática. É um texto que adiará decisões cruciais, exatamente no momento em que relatórios, especialistas e movimentos sociais dizem que já estamos sem tempo.

Crise climática não é ideologia: é sobrevivência

Enquanto produzia as matérias da semana, acompanhei como a extrema direita internacional tentou disputar narrativas do lado de fora e dentro da conferência. De certa forma, a COP30 virou um campo de batalha simbólico, em que fatos científicos competiam com desinformação — a ponto de ser lançada a Declaração Global contra Fake News Climáticas.

Mas, ao ver o resultado final, uma frase que ouvi em Belém ecoou com força: “A crise climática não é sobre direita e esquerda; é sobre quem vai conseguir sobreviver.” As enchentes, as secas, o calor extremo, a falta de água, o risco de novas pandemias — nada disso pergunta a posição política de ninguém. Assim como a Covid-19 não perguntou. A única escolha real é entre ouvir a ciência ou abraçar o negacionismo.

Manifestações foram constantes dentro da COP30, mas ainda são vista como simples disputa política. Foto: Fred Santana

O que saiu da COP30, no entanto, indica que muita gente preferiu o caminho mais cômodo. E foi justamente isso que os protestos nas ruas denunciavam: que enquanto corporações têm acesso direto às mesas de negociação, aqueles que vivem os impactos da crise climática seguem tentando ser ouvidos do lado de fora.

Quando deixei Belém, eu ainda nutria um pequeno fio de esperança de que o texto final pudesse surpreender. Hoje, essa esperança se confirma como ilusão. O acordo anunciado não enfrenta o problema — apenas o administra. E, nesse ritmo, é a crise climática que continuará avançando, não as soluções. Se você não ficou extremamente preocupado com o final da COP30, é porque não entendeu a gravidade do problema da crise climática.


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