Manaus, 21 de novembro de 2025 – Ao longo da cobertura presencial da COP30, o Vocativo acompanhou in loco a movimentação de grupos da extrema direita brasileira nos espaços externos, corredores e eventos paralelos da conferência.
A presença constante de integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL), hoje um partido político, e da produtora de vídeos Brasil Paralelo, empresa de mídia financiada por assinaturas e investidores, chamou atenção de negociadores, pesquisadores e jornalistas.
A atuação observada não se restringiu a críticas às políticas ambientais: ambos os grupos usaram a COP para ampliar alcance, fortalecer redes políticas e se aproximar de possíveis financiadores, em um ambiente fortemente marcado pela presença de corporações do setor petroquímico.
A conferência ocorreu em um dos contextos mais sensíveis já registrados. Pra se ter ideia, um em cada 25 credenciados da COP30 trabalhava diretamente para a indústria do petróleo. Empresas como a Vale e a JBS, ambas acusadas de crimes ambientais, financiaram estruturas do Consórcio Amazônia Legal dentro da conferência.
Em termos de financiamento, Itaú lidera, em escala global, o financiamento privado da expansão petrolífera na Amazônia. Esse conjunto de interesses criou um terreno de forte disputa política, econômica e informacional — e ofereceu visibilidade excepcional para quem buscava se inserir nesse ecossistema.
Agenda estabelecida em Belém
No meio desse fluxo, o MBL organizou encontros próprios, como o “Happy Hour com Arthur do Val e Renato Battista”. A abordagem filmada de do Val à ministra Anielle Franco se tornou um dos episódios mais disseminados da conferência.
A Brasil Paralelo, por sua vez, atuou gravando depoimentos, entrevistas e bastidores, coletando material voltado a futuros documentários alinhados ao discurso crítico que contesta a crise climática global.
A circulação dos dois grupos pelos pavilhões externos e áreas públicas, seguiu um padrão já mapeado em outras conferências globais: ocupar o entorno da agenda oficial, produzir conteúdo destinado a influenciar públicos externos e aproveitar a presença de empresas e agentes econômicos como possível busca por alianças políticas e potenciais financiadores.
Atuação paralela e aproximação
Nos dias de maior movimento, a cidade abrigava transmissões ao vivo, gravações simultâneas e abordagens diretas a participantes da conferência. O MBL e a Brasil Paralelo circularam entre pavilhões governamentais, estandes de empresas e espaços de debates, mas sempre fora das mesas de negociação. A estratégia se encaixava na lógica de atuar por “zonas cinzentas” — locais de grande circulação, mas fora da estrutura decisória.
A presença de representantes de bancos, petrolíferas, fundos de investimento e corporações bilionárias ampliou o potencial de conexão desses grupos. A COP30 foi um dos eventos com maior densidade de atores econômicos ligados a petróleo, mineração e agronegócio em toda a história das conferências climáticas.
Essa configuração reforçou a hipótese de que MBL e Brasil Paralelo buscaram não apenas audiência, mas também acesso a setores que podem financiar iniciativas alinhadas ao discurso que promovem.
As entrevistas gravadas pela Brasil Paralelo reforçavam a narrativa de perda de soberania e de dependência de organismos internacionais. Já os vídeos do MBL exploravam confrontos imediatos e declarações provocativas.
Narrativa criada por Narloch não se sustenta
Durante a COP, o jornalista Leandro Narloch usou as redes para divulgar um estudo que supostamente afirmara que as mortes “causadas pelo clima” caíram 98% ao longo de um século. O documento se baseia no banco de dados EM-DAT, mantido pelo Centro de Pesquisa em Epidemiologia de Desastres (CRED).
O levantamento registra fatalidades diretas provocadas por fenômenos como enchentes, tempestades, secas e ondas de calor, mas não analisa causas climáticas nem avalia os efeitos do aquecimento global. Trata-se de uma base estatística operacional, que apenas compila ocorrências reportadas por governos ao longo do tempo.
Ao transformar esses números em prova de que “o clima está mais seguro”, Narloch omite pontos essenciais do próprio relatório. As décadas iniciais do século 20 têm subnotificação massiva, e a queda nas mortes ao longo do tempo está diretamente associada a sistemas modernos de alerta, infraestrutura mais resistente, atendimento de emergência e políticas públicas de prevenção.
O vídeo feito pela Brasil Paralelo não indica, por exemplo, redução do risco climático, apenas maior capacidade humana de sobreviver a desastres que, hoje, são mais frequentes e intensos. Ao usar o EM-DAT para sugerir que a crise climática seria exagerada, Narloch produz uma leitura que o estudo não faz.
A redução da mortalidade não significa que os eventos extremos diminuíram ou se tornaram menos perigosos. Significa que a sociedade se adaptou melhor a eles. Sem esse contexto, o número de “98%” vira uma conclusão enganosa, desconectada do que a ciência climática mostra e do que o próprio relatório recomenda interpretar.
Estratégia não é nova
O comportamento observado na COP30 não é novo. Reunir, ao mesmo tempo, governos, corporações acusadas de violações ambientais, bancos que financiam petróleo e grupos políticos organizados é sempre uma combinação perigosa.
E, nesse sentido, a COP30 ofereceu esse cenário em escala ampliada. O estudo Corporate funding and climate change skepticism, publicado em 2016, na Nature Climate Change mostra que redes de ceticismo climático frequentemente usam conferências internacionais para criar ruído informacional, ampliando dúvidas sobre políticas ambientais com apoio de setores econômicos interessados.
Relatórios do NetLab/UFRJ, por sua vez, indicam que redes de desinformação ambiental no Brasil operam de forma semelhante, intensificando campanhas em momentos de grande visibilidade pública para fortalecer base política e atrair recursos.
E os corredores desses locais são o alvo preferencial justamente pelo limite da informalidade. O estudo Deep Climate Networks, publicado em 2021 pela Brown University, descreve como grupos ideológicos costumam circular “ao redor” das COPs para articular alianças e produzir conteúdo segmentado — exatamente como visto em Belém.
ONU alerta para riscos da desinformação climática
A preocupação global com o avanço desse tipo de atuação levou a ONU a lançar, durante a COP30, a Declaração Global para Combater Fake News sobre o Clima, destacada pelo Vocativo. O documento considera a desinformação climática uma ameaça direta à implementação de políticas ambientais.
Em entrevista ao Vocativo, Guilherme Canela, chefe de Liberdade de Expressão e Segurança de Jornalistas da UNESCO, falou sobre a necessidade de combater esse tipo de conteúdo. “A desinformação climática se tornou uma das principais barreiras para ações globais e precisa ser tratada com a mesma seriedade de outras ameaças à segurança pública”, disse.
Canela destacou que a transparência sobre financiamento é central no combate ao problema. “Não existe enfrentamento efetivo à desinformação sem transparência sobre quem financia conteúdos que interferem no debate público”, comentou.
Essa opacidade, segundo ele, compromete a percepção pública. “Quando a pessoa vê o post e não sabe que aquele post foi financiado por quem tem interesse direto em frear políticas climáticas, ela forma opinião sem acessar essa informação essencial”, alertou.
Ele enfatizou ainda que compreender a origem da mensagem altera completamente sua credibilidade. “Uma coisa é imaginar que a informação veio de um jornalista isento; outra é descobrir que ela foi financiada por quem lucra com a desaceleração das ações climáticas”, explicou.
Contradição
A COP30 forneceu exemplos dessa contradição. Empresas que financiaram espaços institucionais da conferência enfrentam acusações de danos ambientais ou financiam ativamente a expansão de combustíveis fósseis. “Não é possível defender responsabilidade social enquanto se financia postos que lutam contra políticas ambientais”, disse.
O especialista ressaltou que o impacto da desinformação ainda não é totalmente mensurável. “Esse desenrolar é o que não temos; os dados não são amplos e sólidos, e isso dificulta a percepção do problema”, comentou. E apontou o papel das plataformas digitais na amplificação desses discursos. “Isso não funcionaria se os algoritmos não dessem mais velocidade para determinados discursos, e é por isso que precisamos entender como essa lógica funciona”, explicou.
Para ele, o trabalho jornalístico é decisivo para revelar essas conexões. “É uma hipótese que precisa ser demonstrada, e o jornalismo investigativo é essencial para mostrar quem financia o que e com qual objetivo”, concluiu.
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