Territórios

Movimentos da sociedade civil tentam ser ouvidos do lado de fora da COP30

Enquanto lobistas possuem possuem livre acesso aos corredores da COP30, a Marcha pelo Clima e a Cúpula dos Povos tentam fazer pressão por participação da sociedade civil dentro da Conferência, cobrando voz nas negociações e justiça climática

Manaus, 17 de novembro de 2025 – Enquanto empresas acusadas de crimes e violações ambientais possuem livre trânsito nos corredores da COP30, a Marcha Global por Justiça Climática e a Cúpula dos Povos tentaram ser ouvidos pelo mundo em manifestações paralelas à Conferência.

No último sábado (15/11/2025) mais de 70 mil pessoas tomavam as ruas da capital paraense em um percurso de 4,5 km, lideranças de movimentos sociais, povos tradicionais e redes internacionais entregavam ao presidente da COP30 uma carta construída ao longo de meses, reforçando que os povos da linha de frente da crise climática exigem ser ouvidos dentro das negociações.

Mais de 70 mil pessoas tomavam as ruas da capital paraense neste sábado. Foto: Fred Santana

Ruas ocupadas e pressão

A Marcha levou cartazes, cantos e um banner gigante com a mensagem “Respeitem a Amazônia”, além de uma conta quilométrica que simbolizava os prejuízos acumulados por perdas e danos climáticos atribuídos às maiores empresas poluidoras do mundo. A ação destacou que combustíveis fósseis, desmatamento e desigualdade climática continuam sendo enfrentados de forma desigual pelos povos do Sul Global.

Para as organizações, ocupar as ruas significa garantir presença política onde o acesso nem sempre é permitido. “A Marcha pelo Clima representa a força da participação social que dá vida à COP30. Não há transição justa sem considerar os povos e territórios que já vivem diariamente os efeitos da emergência climática. As mesas de negociação precisam considerar essas vozes”, afirmou Leilane Reis, do Greenpeace Brasil.

Mesmo entre moradores, a presença dos povos indígenas provocou reações que revelam tensões persistentes. “É preciso sair daqui. Daqui a pouco chegam os índios e eles gostam de fazer bagunça”, disse Ribamar Costa, 62 anos, ao deixar a área antes da passagem da marcha.

A Cúpula dos Povos fortalece o coro

Paralelamente à marcha, a Cúpula dos Povos encerrou no domingo (16/11/2025) cinco dias de debates e articulações entregando uma carta política ao presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago. O documento foi construído por povos originários, quilombolas, extrativistas, quebradeiras de coco, pescadores, trabalhadores urbanos, camponeses, juventudes, sindicatos e coletivos de periferias, que denunciam a responsabilidade do Norte global, corporações transnacionais e elites econômicas na atual crise climática.

Cúpula dos Povos reuniu de povos originários, quilombolas, extrativistas a trabalhadores urbanos e camponeses. Foto: Fred Santana

A carta também se posiciona contra guerras, militarização e violações territoriais — temas que organizações afirmam não poder ser dissociados da crise ambiental. O embaixador se comprometeu a encaminhar o texto aos espaços oficiais da COP30, gesto visto pelos movimentos como um passo, ainda que pequeno, para ampliar vozes historicamente marginalizadas nos processos decisórios.

Entre as lideranças que se manifestaram na Cúpula e na conferência, o cacique Raoni Metuktire reforçou a urgência de proteger a Amazônia. “Peço que possamos dar continuidade à missão de defender a vida da Terra. Precisamos lutar contra aqueles que querem destruir a nossa terra”, declarou.

Demandas unificadas

Em convergência com a Marcha, a Cúpula apresentou propostas que buscam influenciar diretamente a COP30. Entre elas, um Plano de Resposta Global para reduzir emissões ainda nesta década; um Plano de Ação Florestal para acabar com o desmatamento até 2030; financiamento público robusto dos países desenvolvidos; e a tributação de grandes poluidores para destravar recursos destinados ao Sul Global.

Movimentos pedem ainda a demarcação e proteção de territórios indígenas, enfrentamento ao racismo ambiental, fortalecimento da agroecologia, cidades justas, responsabilização de empresas por crimes socioambientais e mecanismos para impedir a expansão de combustíveis fósseis, especialmente na Amazônia.


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