Manaus, 16 de novembro de 2025 – Bancos destinaram mais de US$ 2 bilhões em financiamento direto ao setor de petróleo e gás na Amazônia entre janeiro de 2024 e junho de 2025. É o que afirma o relatório “Bancos vs. Amazônia 2025”, divulgado pela organização Stand.earth em parceria com a Amazon Banks Database.
O levantamento, que analisou 843 operações de 330 instituições financeiras, mostra que dez bancos concentram quase 75% do total de recursos aplicados desde o Acordo de Paris (2016). Entre os maiores financiadores estão Itaú Unibanco (US$ 378 milhões), JPMorgan Chase (US$ 326 milhões), Bank of America (US$ 317 milhões) e Citi (US$ 283 milhões).
“O scorecard Bancos vs. Amazônia e a atualização da base de dados Amazon Banks Database oferecem, antes da COP30, não apenas uma oportunidade clara, mas também um prazo urgente para que os bancos parem de financiar combustíveis fósseis na Amazônia,” afirmou Martyna Dominiak, coordenadora de campanhas sênior da Stand.earth.
Para Dominiak, a primeira COP climática da região amazônica é um momento decisivo que exige uma Amazônia livre de combustíveis fósseis, em especial para os povos indígenas e seus aliados que resistem ao extrativismo.
Itaú e Eneva: ligação direta com conflitos indígenas
O Itaú Unibanco, maior banco do Brasil, aparece no topo da lista dos financiadores recentes, com US$ 378 milhões aplicados no setor entre 2024 e 2025. Segundo o relatório, 100% da Amazônia não é abrangida por nenhuma política ambiental (ESRM) do banco. A instituição é classificada como “retardatária” em políticas de direitos humanos e de restrição ao petróleo e gás, e não possui exclusões geográficas específicas para o bioma amazônico.
O documento cita como principal exemplo de risco o financiamento à empresa Eneva, que recebeu US$ 383 milhões desde 2024 para projetos no Complexo Parnaíba e no Campo de Azulão, no Amazonas — regiões que atingem diretamente territórios dos povos Mura, Munduruku e Gavião.
Em 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu as atividades de extração de gás da Eneva no território Gavião Real e proibiu novas licenças ambientais até que sejam feitas consultas prévias às comunidades indígenas. Mesmo assim, o relatório aponta que o financiamento à Eneva segue ativo.
“Nossa pesquisa revela que, embora bancos europeus como BNP Paribas e HSBC tenham aplicado políticas mais robustas para proteger a floresta amazônica — resultando em uma queda significativa nos volumes de financiamento —, nenhum banco ainda reduziu esse financiamento a zero,” destacou Devyani Singh, pesquisadora-chefe do relatório. “Todos precisam fechar as brechas existentes e sair completamente do financiamento ao petróleo e gás na Amazônia sem demora.”
Empresas polêmicas concentram mais de 80% dos recursos
Mais de 80% dos financiamentos recentes identificados pela Stand.earth foram destinados a seis empresas: Gran Tierra, Petrobras, Eneva, Gunvor, Hunt Oil Peru e Pluspetrol Camisea — responsáveis por projetos marcados por controvérsias ambientais, acusações de corrupção e violações de direitos indígenas.
Apenas o consórcio de gás Camisea, formado por Pluspetrol, Hunt Oil e Repsol, recebeu mais de US$ 3 bilhões desde 2016, mesmo após a ONU recomendar em 2013 a suspensão imediata do projeto devido aos riscos a povos isolados no Peru.
A Gran Tierra, empresa canadense que atua na Colômbia e no Equador, expandiu suas operações sem consentimento do povo indígena Inga, e o relatório descreve o caso como exemplo emblemático da persistente violação do direito ao consentimento livre, prévio e informado (CLPI) na Amazônia.
Indígenas denunciam impactos
No mesmo documento, lideranças indígenas da Amazônia de diversas partes da América Latina denunciaram o impacto direto desses financiamentos. “É revoltante que o Bank of America, o Scotiabank, o Credicorp e o Itaú estejam aumentando seu financiamento a petróleo e gás na Amazônia justamente em um momento em que a floresta está sob grave ameaça,” declarou Olivia Bisa, presidente do Governo Territorial Autônomo da Nação Chapra (Peru).
Na Colômbia, Ingry Mojanajinsoy, da Associação dos Cabildos Inga de Villagarzón Putumayo (ACIMVIP), afirmou que “empresas como a Gran Tierra trouxeram conflito, deslocamento e perda cultural para o nosso território. Apesar de anos de resistência, a empresa continua se expandindo, ameaçando nosso modo de vida. Nunca demos consentimento para que o petróleo fosse extraído de nossas terras.”
No Brasil, o cacique Jonas Mura, do Território Indígena Gavião Real, relatou que “a Eneva tem causado muitos prejuízos no nosso território. O barulho, o tráfego de caminhões e as explosões afugentam os animais e afetam nossas caças. Pior ainda: estão entrando sem o nosso consentimento.” Ele acrescentou que “vivem aqui cerca de 1.700 indígenas, e a nossa sobrevivência depende da floresta. Pedimos que bancos como Itaú, Santander e Banco do Nordeste parem de financiar empresas que exploram combustíveis fósseis em territórios indígenas. Esses investimentos são cúmplices de um genocídio.”
Financiamentos superam investimentos do Fundo Amazônia
Enquanto os bancos injetaram mais de US$ 2 bilhões (cerca de R$ 10,9 bilhões) na exploração de petróleo e gás na Amazônia entre 2024 e junho de 2025, o Fundo Amazônia, principal instrumento de preservação ambiental da região, aprovou R$ 2,136 bilhões no mesmo período — R$ 947 milhões em 2024 e R$ 1,189 bilhão no primeiro semestre de 2025, segundo dados do BNDES e do Ministério do Meio Ambiente (MMA).
Desde sua retomada em 2023, o Fundo acumula R$ 5,6 bilhões em aprovações e R$ 1,98 bilhão em desembolsos. A comparação mostra uma disparidade de quase cinco vezes entre o que é investido na exploração de combustíveis fósseis e o que é destinado à proteção da floresta amazônica. Enquanto o Fundo luta para financiar projetos de conservação, os bancos continuam ampliando o crédito para indústrias que aceleram o desmatamento, a poluição e os conflitos socioambientais na região.
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