
A Prefeitura de Manaus e a Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (Manauscult) descumpriram o prazo judicial para apresentar informações e documentos sobre os gastos do festival “Sou Manaus Passo a Paço 2025”. De acordo com o Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM), o orçamento da festa saltou de R$ 2 milhões em 2022 para R$ 25,1 milhões em 2025 — um aumento de 1.156%.
O TCE-AM havia determinado que o prefeito David Almeida (Avante) e o diretor-presidente da Manauscult, Jender de Melo Lobato, expliacassem os gastos milionários. Antes, o juiz Leoney Figliuolo Harraquian, da 2ª Vara da Fazenda Pública, determinou no dia 17 de setembro a divulgação integral dos contratos e despesas.
A determinação judicial deu prazo de 15 dias para que o Município e a Manauscult disponibilizassem, tanto no processo quanto nos portais de transparência, todos os contratos, licitações, notas de empenho, ordens de pagamento e documentos de patrocínio referentes às edições do evento desde 2022, sob pena de multa diária de R$ 50 mil.

Prefeitura alega “complexidade”
A Procuradoria-Geral do Município admitiu, em petição protocolada no dia 9 de outubro, que a ordem não foi cumprida integralmente. A Prefeitura alegou “impossibilidade prática de atendimento à ordem judicial no prazo estabelecido” e pediu uma prorrogação de 30 dias para apresentar os documentos faltantes. Segundo o órgão, as informações referentes a 2025 “não estão completas” e parte da documentação “encontra-se em fase de processamento”, devido à “complexidade dos procedimentos administrativos”.
A Manauscult, por sua vez, reforçou o mesmo argumento em ofício enviado à Procuradoria-Geral, assinado por seu diretor-presidente, Jender de Melo Lobato. O documento afirma que as informações “ainda não foram integralmente liquidadas” e solicita orientação sobre “a melhor estratégia para cumprir a determinação judicial” sem sofrer a multa prevista.
Autor promete nova ação
O vereador Coronel Rosses (PL), autor da ação popular, afirmou que o comportamento da Prefeitura confirma a falta de transparência na execução orçamentária do festival. Segundo ele, os documentos anexados aos autos não condizem com a realidade e apresentam inconsistências.
O parlamentar disse que uma planilha juntada pela própria Prefeitura aponta mais de R$ 10 milhões em gastos apenas na edição de 2022, embora a Lei Orçamentária daquele ano previsse R$ 2 milhões para o evento.
TCE também se manifestou
Enquanto isso, no âmbito do controle externo, o conselheiro Érico Xavier Desterro, do TCE-AM, determinou a notificação do prefeito e do diretor da Manauscult para que apresentem, em até cinco dias, justificativas técnicas e financeiras que expliquem a elevação de 1.156% no orçamento do “Sou Manaus Passo a Paço”.
O despacho, publicado em 30 de setembro no Diário Oficial Eletrônico do Tribunal, também cobra a íntegra dos contratos, processos de inexigibilidade de licitação, notas de empenho e ordens de pagamento relacionadas ao evento.
A decisão do TCE-AM cita ainda a Lei Municipal nº 593/2025, que proíbe o uso de verbas públicas para contratar artistas cujas apresentações incentivem a sexualidade ou causem constrangimento. A representação menciona a contratação da cantora Ludmilla como exemplo de possível descumprimento da norma.
O conselheiro destacou, em sua decisão, que mesmo sem manifestação dos notificados, o processo retornará ao gabinete após o prazo estabelecido, para análise e eventual deliberação sobre medida cautelar. A atuação do TCE-AM e o impasse judicial reforçam o cerco em torno da falta de transparência na gestão dos recursos públicos destinados ao maior evento cultural da capital amazonense.
Descubra mais sobre Vocativo
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

