O Projeto Brief divulgou nesta terça-feira (26/08/2025), a nova edição do relatório Quem Paga a Banda, estudo que investiga o financiamento de campanhas, narrativas e redes de influência a partir dos dados da Biblioteca de Anúncios da Meta. O levantamento traz um panorama dos dez maiores investidores em anúncios da categoria “Sociedade” durante o primeiro semestre de 2025, período que vai de 1º de janeiro a 28 de junho.
Segundo o relatório, o Brasil Paralelo aparece como maior anunciante, com R$ 1,6 milhão aplicados em 1.320 publicações — quatro vezes mais do que o Governo do Estado de São Paulo gastou no mesmo período. A plataforma, que já figura como o segundo maior anunciante com selo político do país, lidera em valores e simboliza o fortalecimento de narrativas conservadoras no ambiente digital.
Outros destaques do ranking são a Revista Oeste, com R$ 923 mil; o ex-ministro da Economia Paulo Guedes, que investiu R$ 624 mil em 54 anúncios — cada um deles com valor médio de R$ 11,5 mil; e o influenciador Victor Doné, que, com 16.087 anúncios disparados em seis meses, alcançou o maior volume registrado, somando R$ 469 mil em investimentos. Doné se destaca pelo uso de mensagens conspiratórias e místicas, como a venda do chamado “Código de Deus”, em que associa prosperidade a segredos espirituais acessíveis apenas a poucos privilegiados.
O relatório aponta que os anúncios conservadores exploram três vertentes principais da ideia de liberdade: expressão, financeira e política. A liberdade de expressão é usada para legitimar veículos como “independentes”, reforçando discursos de perseguição e censura diante da exclusão de conteúdos. A liberdade financeira é vinculada a fórmulas de sucesso, investimentos em Bitcoin e promessas de independência econômica, enquanto a liberdade política é apresentada como resistência contra um suposto “estado de exceção” no Brasil, transformando a assinatura de portais conservadores em ato de oposição ao Estado e à mídia tradicional.
Além disso, o estudo detalha como catástrofes climáticas têm sido exploradas pela mídia conservadora. Reportagens e vídeos são estruturados com entrevistas a populações locais, criando a percepção de proximidade e acolhimento, mas atribuindo a responsabilidade pelas crises ao governo federal, o que pode distorcer responsabilidades e confundir a população sobre os papéis das diferentes esferas de poder.
Na comparação entre campos políticos, o Projeto Brief ressalta que a direita investe de forma coordenada em narrativas que despertam conexão emocional com termos como liberdade, família e fé. Já o campo progressista se fragmenta em múltiplas pautas — meio ambiente, diversidade, justiça social, saúde, democracia — que se traduzem em convites frios para relatórios e petições, sem estabelecer vínculos emocionais prévios.
A diferença também aparece na comunicação sobre adversários: progressistas concentram esforços em denúncias e críticas, mas raramente apresentam soluções claras, enquanto conservadores contrapõem críticas a uma promessa de ordem, segurança e prosperidade. Para o coordenador-geral do Projeto Brief, Ricardo Borges Martins, “são investimentos milionários destinados a influenciar como as pessoas percebem o mundo, mas com uma diferença fundamental: de um lado, um campo que entende plenamente o papel da comunicação para a disputa cotidiana da opinião pública, do outro, um campo que usa anúncios de modo essencialmente tático, quase como um recurso auxiliar de campanhas”.
Entre os dez maiores investidores aparecem ainda Greenpeace Brasil, GloboNews, ICL Notícias, Canal Meio, Oxfam Brasil e Brasil Paralelo Select, evidenciando a disputa de espaço no ambiente digital. Enquanto parte da mídia tradicional e organizações progressistas atuam em campanhas específicas, veículos conservadores mantêm estratégias de longo prazo, sustentadas por grandes aportes financeiros e repetição coordenada de narrativas.
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