As tarifas de até 50% anunciadas pelo governo dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, decretadas pelo presidente Donald Trump e efetivas desde a última quinta-feira (06/08/2025), podem afetar diretamente mais da metade dos empreendimentos relacionados à sociobiodiversidade na Amazônia Legal. De acordo com levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), aproximadamente 54% dos empreendimentos mapeados — cerca de 5,4 mil dos 11 mil CNPJs ativos — estão inseridos nas cadeias produtivas potencialmente impactadas.
Dentre esses empreendimentos, pelo menos 216 exportam produtos para os Estados Unidos, sendo diretamente afetados pelas novas tarifas. Entre os produtos analisados, apenas a castanha-do-brasil e a borracha ficaram fora das imposições tarifárias. O restante, incluindo açaí, cacau, mel, óleos vegetais, temperos, pescados e itens da aquicultura, gerou cerca de 165 milhões de dólares em exportações para o mercado norte-americano, correspondendo a aproximadamente 39 mil toneladas de produtos da Amazônia Legal.
Esses empreendimentos fazem parte das cadeias produtivas da bioeconomia amazônica, compostas por atividades de extração, produção e comercialização de recursos da biodiversidade por meio do manejo sustentável. Essas cadeias envolvem pequenos produtores, cooperativas e bioindústrias e são consideradas estratégicas para o desenvolvimento sustentável e para soluções climáticas na região. Entretanto, já enfrentam desafios relacionados a logística, crédito, infraestrutura e agregação de valor.
Pesquisadores do IPAM indicam que o aumento tarifário pode representar uma barreira adicional para a geração de renda das populações em territórios vulneráveis da Amazônia. Eles destacam que as isenções dos Estados Unidos concentram-se principalmente em setores industriais de mineração, petróleo e fabricação de peças para automóveis e aviação, setores conhecidos por suas altas emissões de carbono e impacto ambiental.
Gabriela Savian, diretora de Políticas Públicas do IPAM, ressalta que as cadeias da bioeconomia amazônica são vulneráveis a imposições comerciais externas. “Apesar da isenção de alguns produtos, como a castanha-do-brasil, o tarifaço tende a aumentar a pressão econômica sobre pequenos produtores e bioindústrias, justamente em um setor que ainda enfrenta dificuldades para agregar valor e competir em condições mais justas nos mercados internacionais”, afirma Savian.
Segundo Rafaela da Costa, também pesquisadora do IPAM, uma das estratégias para fortalecer a competitividade da bioeconomia brasileira é diversificar mercados nacionais e internacionais, além de investir na bioindustrialização de produtos amazônicos. “Exportar produtos primários, sem agregar valor localmente, nos torna vulneráveis a esse tipo de choque externo. A bioeconomia não é só ambiental — é econômica, social e política. Por isso, a bioindustrialização é estratégica para a Amazônia e precisa vir acompanhada de políticas públicas que promovam inclusão produtiva, inovação e infraestrutura”, explica.
Pesquisadores reforçam que, assim como o governo brasileiro atua em defesa de grandes setores industriais, as cadeias produtivas da bioeconomia amazônica também deveriam constar nas agendas comerciais e industriais do país. A implementação de políticas públicas de incentivo à agregação de valor local é apontada como um caminho necessário para a sustentabilidade econômica e social desses empreendimentos.
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