Uma denúncia feita por por familiares ao Vocativo expôs um problema grave enfrentado por famílias amazonenses: a interrupção no fornecimento de medicamentos para tratamento de puberdade precoce central na rede estadual de saúde. A menina em questão, de apenas 8 anos, apresenta desenvolvimento antecipado de características sexuais e sofre com dores intensas na coluna, nas pernas e nas costas. Segundo laudos médicos, ela também possui Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e disidrose, o que exige tratamento contínuo com apoio de especialistas.
A medicação indicada para seu caso — Leuprorrelina e a Triptorrelina — são aplicada de forma intramuscular a cada 28 dias. O custo do tratamento, quando obtido em farmácias particulares, ultrapassa os R$ 4.700 por dose, valor inacessível para os parentes da criança, que vivem com dificuldades financeiras.
“Ela começou o tratamento no CAIC Afrânio Soares, onde recebia as doses mensalmente. Em novembro do ano passado, o fornecimento foi interrompido e, desde então, a situação só piora. Só consegui uma única dose da forma mais fraca no mês passado, depois de muito insistir e procurar a Defensoria Pública”, relatou uma das responsáveis pela criança. A menina, que está com desenvolvimento ósseo compatível com 11 anos e meio, tem 8 anos de idade e sofre crises noturnas de dor, que a impedem de dormir e ir à escola com regularidade. Além das dores físicas, a família teme que a condição médica cause impactos ainda mais severos.
Os médicos que acompanham a jovem recomendam o bloqueio imediato da puberdade por meio da medicação e reforçam a necessidade de acompanhamento multidisciplinar com psicólogo, fonoaudiólogo e suporte pedagógico, especialmente diante do TDAH. Algo que, segundo a família, não está acontecendo.
Diante da falta do remédio, os familiares procuraram a Defensoria Pública do Estado do Amazonas, mas esbarraram em entraves burocráticos. Para dar andamento ao processo, foi exigido que ela apresentasse três orçamentos de farmácias diferentes comprovando o valor do medicamento. “Eu levei o primeiro, de R$ 4.752,25. Eles querem mais dois. Como uma pessoa pobre vai conseguir isso tudo? Enquanto isso, a menina está sofrendo. Estou cansada de passar noites em claro com ela chorando de dor”, contou uma das responsáveis.
Questionada pela reportagem, a Secretaria de Estado da Saúde do Amazonas (SES-AM) informou, por meio da Central de Medicamentos do Amazonas (Cema), que o medicamento leuprorrelina 3,75 mg está atualmente disponível na rede pública e que a triptorrelina 3,75 mg está em fase de aquisição, aguardando entrega por parte do fornecedor. A secretaria destacou que, com base na intercambialidade terapêutica, pacientes estão sendo atendidos com leuprorrelina mediante avaliação médica.
Apesar da resposta oficial, a situação enfrentada pela família da menina revela um descompasso entre a realidade dos usuários e o discurso institucional. A criança, que deveria receber a medicação até os 17 anos, conforme recomendação médica, está há oito meses sem o tratamento regular.
“Quero que o governo faça o que é obrigação dele: forneça o remédio todos os meses, como era antes. E para todas as crianças com o mesmo problema. Isso é responsabilidade do Estado, não da sociedade civil, nem de vaquinhas na internet”, declarou uma das parentes.
A família segue aguardando novos desdobramentos por parte da Defensoria Pública e da Secretaria de Saúde. Enquanto isso, a menina segue enfrentando dores, dificuldade de aprendizagem e risco de menstruação precoce, num cenário que revela falhas graves na política de assistência farmacêutica do estado.
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