Engrenagens

MPF-AM recomenda suspensão de atividades de crédito de carbono/REDD+

Após operação da Polícia Federal em junho, o Ministério Público Federal recomendação e todas as operações envolvendo crédito de carbono e modelos REDD+ que incidem nos territórios indígenas e tradicionais no Amazonas

O Ministério Público Federal (MPF) expediu, nesta quinta-feira (08/08/2024), recomendação para que sejam suspensas todas as operações, os contratos e as tratativas em andamento no tema crédito de carbono e no modelo de Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD+), que incidem nos territórios indígenas e tradicionais, com ou sem regularização fundiária definitiva, no estado do Amazonas.

Em junho, a Polícia Federal realizou a Operação Greenwashing, quando desarticulou uma organização criminosa suspeita de vender cerca de R$ 180 milhões em crédito de carbono de áreas da União invadidas ilegalmente. O dano ambiental foi estimado em R$ 606 milhões. A operação também revelou que a organização obteve cerca de R$ 820 milhões em terras griladas.

O documento recomenda que a comercialização de créditos carbono, no Brasil ou no exterior, seja suspensa. Tal informação deve ser encaminhada para todos os atores envolvidos nas tratativas e negociações em andamento, já iniciadas ou finalizadas – desde comunitários, lideranças, empresas e instituições nacionais ou internacionais –, para ciência e adoção das medidas recomendadas. A recomendação solicita ainda que seja dada ampla publicidade ao documento em todas as mídias sociais, páginas da internet e grupos de aplicativos pertencentes aos referidos órgãos e empresas ou nos quais participam.

A recomendação foi enviada ao governador do estado; ao secretário de estado de Meio Ambiente do Amazonas e às demais secretarias estaduais; aos prefeitos e secretários municipais das prefeituras; aos representantes das empresas, das instituições, das organizações não-governamentais, das certificadoras; e a todos os atores públicos ou privados que atuam no mercado de crédito de carbono/REDD+.

Condições

Segundo o MPF, a comercialização deve ser suspensa enquanto todos os requisitos definidos na recomendação não forem cumpridos, tais como a comprovação de eficácia concreta da redução dos impactos climáticos via compensação de créditos carbono/REDD+, demonstração de não violação dos direitos dos povos indígenas e comunidades tradicionais, realização de consulta prévia e regulamentação do tema.

O não atendimento das providências apontadas resultará em responsabilização dos destinatários e dirigentes recomendados, por sua conduta comissiva ou omissiva, sujeitando-os às consequentes medidas judiciais e extrajudiciais cabíveis. Em abril de 2022, o Provocativo abordou esse tema e mostrou como é complexo esse mercado.

Riscos envolvidos

Em junho, o MPF realizou evento on-line para discutir o tema com lideranças de povos indígenas e comunidades tradicionais, órgãos públicos, pesquisadores e especialistas do Brasil e de outros países. O webinário estimulou discussões sobre o impacto do modelo REDD+ em comunidades indígenas e tradicionais no Brasil e no mundo, os riscos e problemas jurídicos envolvidos, além da sua eficácia no combate à crise climática mundial. 

Em nota divulgada em abril deste ano, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) manifestou preocupações e dúvidas acerca do potencial lesivo dos contratos de crédito de carbono ao patrimônio e direitos indígenas garantidos pela Constituição, bem como sobre a qualidade e lisura dos processos de consulta realizados junto às comunidades indígenas interessadas, além da falta de amadurecimento do arcabouço normativo nacional sobre o tema.

A Funai também recomendou que os povos indígenas não participem de tratativas nem celebrem contratos em seus territórios. O assunto também foi analisado em nota técnica do MPF e do Ministério Público do Pará, que, no ano passado, já apontava riscos de conflitos relacionados à falta de consulta prévia e à repartição desigual de benefícios.

No Amazonas, o MPF possui inquéritos civis em andamento que apuram temas de crédito carbono sobre territórios indígenas/tradicionais. Em contato com várias lideranças tradicionais das unidades de conservação estaduais, que são territórios tradicionais destes povos, foi informado ao MPF que não houve consulta ou contato, que eles não conhecem a proposta e nem mesmo o modelo de funcionamento de contratos de crédito carbono ou REDD+ trazidos pela Secretaria de Meio Ambiente do Amazonas Sema).

Sema se manifesta

Em nota, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), alegou que segue toda a legislação aplicável para viabilizar projetos de REDD+ em Unidades de Conservação. “A Sema reforça que os projetos selecionados, por meio de chamamento público, ainda não foram aprovados e que consultas públicas serão realizadas junto às comunidades, de modo a garantir as salvaguardas socioambientais e a repartição justa de benefícios para as populações tradicionais das localidades em questão”, explicou.

A secretaria afirmou ainda que a construção das iniciativas “vai ocorrer junto às comunidades, em oficinas participativas, tendo como foco a implementação dos Planos de Gestão das UC já existentes, aprovados e construídos democraticamente com os moradores” e que “nenhum projeto será elaborado sem o consentimento e aprovação prévia das populações tradicionais e que só serão executados caso as propostas sigam estritamente o que foi decidido pelos comunitários e parâmetros previstos em edital”.

Com informações da assessoria de imprensa do MPF-AM

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