Uma série de empreendimentos imobiliários estão colocando em risco o último igarapé limpo de Manaus: o Água Branca, localizado na região do Tarumã, zona oeste da capital. O aterramento do curso de água, a derrubada da vegetação e o despejo de resíduos como combustíveis pode ter consequências imprevisíveis para a fauna e a flora da região.
Segundo denúncia da ONG Mata Viva, nos últimos dois meses, uma extensa área foi desmatada próxima ao Supermercado Vitória, na Avenida do Turismo, trazendo mais riscos ao igarapé. E a autorização para as obras teria partido do Instituto Municipal de Planejamento Urbano da Prefeitura de Manaus (IMPLURB). “Há dois meses, mais ou menos, a gente denunciou e a Secretaria Municipal do Meio Ambiente [Semas] multou e a obra parou durante um tempo. Mas nessa última semana retornou novamente com força total”, explica o presidente da ONG, o jornalista Jó Farah .

Ainda segundo a Mata Viva, há planos para um posto de gasolina no local, o que pode acarretar o despejo de combustível e derivados nas águas do igarapé. “Em se confirmando, é prova de que eles não sabem nem o que nem onde estão licenciando, porque se fosse feita uma vistoria mínima, eles iriam ver que aquele local não é apropriado para desmatar porque se trata de uma Área de Proteção Ambiental (APP)”, lamentou Jó.
“É o tipo de empreendimento que não precisa ter dois acidentes. Basta um incidente e acaba com o igarapé”
Jó Farah, presidente da ONG Mata Viva
Ainda segundo o presidente da ONG, os órgãos de fiscalização precisam olhar com mais cuidado para a presença da empresa Oliveira Energia, que faz a locação de grupos geradores de energia para a Eletrobrás Amazonas Energia, na área. Para Jó, a fiscalização inadequada faz com que outras empresas atuem de maneira irregular no local.
“É o tipo de empreendimento que não precisa ter dois acidentes. Basta um incidente e acaba com o igarapé, porque essas máquinas são movidas a diesel. E se escorrer diesel para dentro do igarapé, mata definitivamente o igarapé Água Branca”, alertou o jornalista.
Outro elemento de perigo para o Água Branca e a ocupação imobiliária. A duplicação da Avenida do Turismo, apelidada de Rodoanel, representou um duro golpe para o igarapé. As obras causaram desmatamentos massivos ao longo do igarapé próximo à Cachoeira Alta, e a previsão de construir duas mil casas na área, o que só agrava a situação. Nesse caso, nem adianta planejar corredores ecológicos, que estariam previstos como compensação pelo empreendimento.
“Do que que adianta um corredor com duas mil casas sendo construídas? Isso envolve a chegada de comércios, posto de gasolina, eletricidade, etc. É uma demanda gigantesca. A tendência natural é que esse corredor nunca se efetive. E esses desmatamentos todos ameaçam diretamente o Água Branca”, lamenta Jó.
Impactos desse tipo de alteração
Fundamentais para o fornecimento de água potável (evitando a proliferação de doenças vindas da poluição da água), os igarapés deveriam propiciar a irrigação de cultivos em comunidades ribeirinhas, fornecendo peixes para consumo e ornamentação além de serem vias para as canoas e também áreas de lazer. Em Manaus, no entanto, essa é uma realidade distante e aparentemente irreversível.
“A água é fundamental em tantos aspectos para o nosso dia a dia, para a vida do ser humano. E essa água que está próximo de grande parte da população amazônica é morta, na maioria das vezes”
Ayan Fleischmann, Pesquisador do Instituto Mamirauá
“A Amazônia vive esse paradoxo muito maluco: No planeta, 20% da água que chega por rios aos oceanos saem pelo rio Amazonas. No entanto, as populações ribeirinhas passam sede durante a seca. Os rios, as cidades estão completamente sem acesso a essas águas de igarapés extremamente contaminados. É uma das grandes tragédias da Amazônia atual”, lamenta Ayan Fleischmann, Pesquisador do Instituto Mamirauá.
E como muito provavelmente o Amazonas enfrentará uma nova estiagem severa em 2024, a poluição dos igarapés como o Água Branca, terá impacto direito na população com as chamadas doenças de veiculação hídrica. Segundo dados são da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), 24.462 mil pessoas adquiriram doenças diarreicas em outubro deste ano, contra 19.155 mil no mesmo mês de 2022. Isso porque, com a estiagem e acabam, as pessoas acabam consumindo água sem tratamento e de poços improvisados.
“A água é fundamental em tantos aspectos para o nosso dia a dia, para a vida do ser humano. E essa água que está próximo de grande parte da população amazônica é morta, na maioria das vezes. Então, as consequências são inúmeras. São ambientes muitas vezes intransitáveis e que afetam as pessoas mais vulneráveis, que são justamente aquelas que têm de viver em palafitas às margens de igarapés contaminados. É uma das cenas mais tristes”, consterna-se Ayan.
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