Matiz

Editorial: “Qual é o portal?”

Em um mercado onde veículos de comunicação lutam pra sobreviver, blogs sem identificação recebendo milhares de reais em espécie dentro de instalações do poder público é mais do que suspeito. Mas o problema é ainda mais complexo do que parece

Essa semana, matéria do Portal Metrópoles trouxe o vídeo de um homem ainda não identificado que supostamente representaria um portal de notícias pegando dinheiro em espécie na Secretaria Municipal de Comunicação (Semcom) da Prefeitura de Manaus. O episódio mostrou a urgência de apurar em detalhes o financiamento de veículos de comunicação do estado pelo poder público.

Até o momento há mais perguntas do que respostas sobre o que aconteceu. Posicionamento da prefeitura ou da secretaria de comunicação? Até o momento nenhuma. Segue o mesmo silêncio constrangedor protocolar de políticos locais quando um assunto negativo os atinge. Detalhe: poucos veículos de imprensa se manifestam a respeito, enquanto outros correram para “desmentir” a reportagem. Curioso.

O que temos de concreto: um homem alegando ser representante de um site de notícias obscuro (praticamente não possui matérias próprias) aparece no prédio da prefeitura (na sede da Semcom) recebendo uma sacola genérica (sem identificação) contendo milhares de reais em dinheiro vivo (em plena era do PIX), ou seja, de maneira não rastreável. Mas o dado mais grave dessa história é uma frase, uma pergunta dita pela atendente que lhe entrega a sacola: “É PRA QUAL PORTAL?”. Em outras palavras: outras pessoas estavam sendo aguardadas.

Nos últimos anos, o número de blogs e portais de notícia no Amazonas disparou. Muitos desses veículos não possuem qualquer identificação ou contato de jornalista responsável e só publicam notícias genéricas ou releases. Isso quando não publicam informações depreciativas contra outros políticos ou figuras aleatórias, em verdadeiros ataques contra reputações.

O mais estranho é que isso acontece em um mercado onde a sustentabilidade financeira é quase nenhuma. Na verdade, o resto do mundo vive uma situação oposta, onde a falta de financiamento leva a crises nas redações, o fechamento de muitos veículos e demissões em massa de jornalistas. Não há justificativa plausível para tantos sites surgirem. Até agora.

O fato é que o destino de verbas publicitárias do poder público sempre foi nebulosa com relação aos seus critérios. Veículos com produção zero de conteúdo próprio (ou conteúdo suspeito) aparecem com somas bastante generosas do dinheiro do contribuinte, enquanto outros lutam para manter a sustentabilidade financeira. Mas o problema vai muito além dos blogs obscuros.

Mesmo a postura de alguns veículos considerados tradicionais precisa ser questionadas. Se você acha exagero, faça o seguinte exercício: jogue os nomes de políticos do Estado indiciados ou envolvidos em julgamento de crimes nas cortes superiores do país nos buscadores dos veículos e veja quantos publicam notícias de cunho questionador sobre eles. Isso quando adversários diretos são sempre mencionados. Há casos de indiciamento de autoridades no Superior Tribunal de Justiça (STJ) que sequer são mencionadas!

Vou fazer aqui uma revelação: muitos dos furos que o Vocativo dá não são dele, mas de colegas que repassam informações na condição de anonimato porque sabem que não poderão divulgar nos seus locais de trabalho. E se denunciasseem nas redes sociais, perderiam seus empregos. A confiança dada a mim por eles foi construída ao longo de muitos anos.

Hoje é muito difícil distinguir o que é de fato jornalismo e o que é assessoria de imprensa em muitos veículos do Amazonas. E isso precisa ser exposto porque, se há dinheiro público por trás dessa postura, o cidadão precisa saber. É ele quem mais sofre quando não vê no noticiário como seu dinheiro é tratado ou como se comportam os políticos que ele paga com seus impostos. É ele quem não tem as informações que precisa na hora do voto. Isso sem falar na ética da categoria.

Mas há algo mais grave a ser observado. Levantamentos do Portal da Transparência mostram que alguns órgãos do poder público gastam somas exorbitantes com comunicação. Em alguns casos, mais do que com outros setores importantes. Por que? E mais importante: será mesmo com comunicação? Porque se uma pessoa pode perfeitamente ir até uma prefeitura pegar somas em dinheiro vivo sem ser rastreado, ela pode fazer o que quiser com esse dinheiro. E se o destino final dele for ainda mais ilícito do que bajular políticos ou assassinar reputações?

Passou da hora de abrir essa caixa preta, inclusive chamando entidades representativas (alô, sindicato e Fenaj). É preciso mostrar quanto cada órgão está pagando, para quem está pagando, com qual finalidade e acima de tudo: sob quais critérios? Não há ilegalidade em destinar verbas de publicidade para veículos jornalísticos, desde que isso seja feito com atendendo os princípios básicos da administração pública, em especial a moralidade e a transparência. E a julgar pelo que vimos essa semana, isso definitivamente não está acontecendo.


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