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A esquerda se comunica mal, mas esse é o menor dos problemas

Creditar eleições e golpes apenas a falhas na comunicação, ignorando outros fatores é um pensamento raso. Por outro lado, há uma enorme falha na comunicação na esquerda brasileira: ela se isola dentro de uma bolha e é engolida por um ecossistema hostil

Nos últimos dias, vem ocorrendo um debate (em alguns momentos embate) nas redes sociais sobre a queda de popularidade do presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT). Pesquisas de opinião divulgadas essa semana apontam perda de aprovação do presidente após declarações sobre Israel, além de piora na economia.

Também chamou atenção uma mensagem na Plataforma X do ex-deputado federal Jean Wyllys onde ele comenta uma suposta viagem de aplicativo onde teria batido boca com um motorista em virtude da pregação religiosa do profissional. O ex-BBB, que já foi cogitado para ser ministro das comunicações, foi chamado de grosseiro pelo tom agressivo na fala.

Embora pareçam situações distintas, ambas têm mais em comum do que se imagina. Desde então, militantes discutiram se o problema, na verdade, não seria apenas a forma como o governo (ou a esquerda em geral) divulga suas ações.

Na visão de muitos, o governo não vai tão mal assim, mas suas ações positivas não chegam até o grande público. É óbvio que não se pode atribuir quedas de presidente, golpes e tentativas de golpe a mensagens nas redes sociais, mas há sim uma correlação que precisa ser entendida.

Economia: o fator de desequilíbrio

Primeiro: qualquer pesquisa de opinião vai refletir, claro, a polarização política do país e a forte carga de negativa sobre a esquerda estabelecida nos tempos da Lava Jato, mas acima de tudo, vai ponderar a economia do país. E não adianta falar em PIB, superávit ou importações.

Para o trabalhador, isso não interessa. E sim, apesar do ganho real do salário mínimo (o que é ótimo) há uma nítida deterioração no poder de compra do brasileiros do final de 2023 pra cá. E não adianta falar em projeção anual. O povo se preocupa com as compras da semana.

O fiel da balança desse tipo de pesquisa sempre será o eleitor que não se identifica com nenhum dos dois lados, mas que rejeita qualquer um que não conseguir atender as suas necessidades básicas (economia). Se eu fosse ele, me preocuparia primeiro com isso.

Quanto mais poder de compra, maior será a popularidade do presidente. Quanto menos capacidade de pagar boletos, mais questões como a corrupção vão se sobressair, já que, no imaginário popular, se o Brasil vai mal é porque tem alguém roubando ele.

A maior prova é que mesmo um governo de extrema direita que supostamente domina as narrativas nas redes viu a popularidade do seu presidente desabar durante os piores momento da sua economia. Quando o poder de compra subiu (com o Auxílio Emergencial ou Auxílio Brasil), Bolsonaro se fortaleceu e quase foi reeleito. Conclusão: tratar perda de popularidade como simples problema de informação é se desconectar da realidade.

Mas sim, há erros de comunicação

Mas, de fato, há erros de comunicação na esquerda brasileira, especialmente nos governos do PT. Muitos apontam as publicações nas redes sociais e a comunicação institucional do governo como a fonte do problema. Errado. O problema não está aí. Até porque, sejamos francos, qualquer pessoa sabe identificar conteúdo institucional e saber que, justamente por ser do governo, precisa ser visto com ressalvas. Basta raciocinar: a extrema direita não se fortaleceu quando esteve no governo, mas fora dele.

Aí entra uma outra concepção equivocada da militância de esquerda: confundir “qualidade” (um conceito totalmente subjetivo) com eficácia e efetividade. Via de regra, eficácia é a capacidade de alcançar objetivos propostos e efetividade é a habilidade de se chegar ao que foi desejado. A extrema direita usa linguagem coloquial, muitas vezes chula, recursos estéticos pobres, mas convence as pessoas daquilo que escreve. Mas por que ela é mais eficaz e efetiva?

Nenhuma informação isolada fixa na cabeça de ninguém. É preciso convencer as pessoas de que a sua mensagem corresponde a um fato. Eu, por exemplo, quando publico notícias no Vocativo, preciso que você confie no que estou dizendo, mas se eu quero a sua confiança, naturalmente isso deixa recair sobre mim uma suspeição. A melhor forma de te convencer é fazer com que outras pessoas, que aparentemente não tem ligação comigo, corroborem com as minhas ideias.

Ora, tirando o apoio de militares, como Bolsonaro, um político de baixo clero com quase 30 anos de vida parlamentar de repente se tornou um fenômeno político? Simples: porque ele não subiu sozinho ao poder. Na onda do bolsonarismo, dezenas de figuras absolutamente isoladas e desconhecidas do público saíram do anonimato para uma carreira meteórica se retroalimentando de engajamento nas redes.

Bolsonaro ganhou força quando youtubers de extrema direita começaram a replicar suas falas, quando pastores abriram suas igrejas para esse tipo de cooptação, quando figuras do esporte passaram a apoiá-lo publicamente, quando influenciadores digitais passaram a engajar suas pautas. Esse ecossistema de desinformação é a fonte do poder do bolsonarismo. É por isso que qualquer ação da esquerda sempre cai em um ambiente virtual hostil.

Manifestações agressivas e desnecessárias como as de Jean Wyllys, tendo elas acontecido ou não, só atrapalham. Essa incapacidade de dialogar com pessoas que divergem, achando que o fato delas serem evangélicas, por si só, faz delas extremistas, quebra qualquer canal de contato. Na cabeça do evangélico, é preciso pregar. É parte da fé dele. Se você quer descontruir essa cultura sem tornar aquele crente seu inimigo, precisa de sensibilidade pra abordá-lo.

Claro que há muitos extremistas disfarçados de evangélicos com os quais é impossível e perda de tempo dialogar, mas é necessário saber diferenciar um do outro. Entra em cena a necessidade de diversificar e popularizar também a massa crítica de esquerda.

Ora, quantos programas de incentivo/formação para produtores de conteúdo, jornalistas, influenciadores populares existem atualmente? Quanto de verba publicitária estatal é destinada a eles? Quantas concessões de rádio são dadas para esses profissionais? Não faltam iniciativas de jovens negros, grupos LGBTQIAP+, comunicadores do Norte e Nordeste capazes de grandes trabalhos e propagação de conteúdo diversificado capaz de fazer frente ao conteúdo da extrema direita. Mas eles estão abandonados.

Agora observe quanta verba publicitária estatal vai para os veículos de mídia hegemônica nesse país. Quantos pastores têm conseguido concessões de rádio (e agora até mais isenção fiscal) no governo Lula? Isso é infinitamente mais deletério para a comunicação do governo (que continuará a ser atacado por esse ecossistema) do que qualquer declaração sobre a Palestina.

A maior falha de comunicação da esquerda é decidir se manter isolada dentro de uma bolha, que por sua vez está isolada em um ecossistema de informação hostil. O que é mais absurdo se imaginarmos que estamos em um governo que se autoproclama de esquerda e que não é capaz de entender essa dinâmica e jogar o mesmo jogo.

E antes que alguém fale não, não se trata de ter uma milícia digital, muito menos “dar dinheiro” para produtores de conteúdo de esquerda. Se trata de democratizar a informação e a comunicação como direito fundamental. Mas também de nada adianta criar um ecossistema de informação progressista se ela for feita de forma agressiva. Uma das maiores armas do neopentecostalismo bolsonarista, por exemplo, é o acolhimento.

O eleitor que elegeu um presidente de esquerda de certo modo acredita na necessidade de descentralizar a comunicação (e o jornalismo) de um grupo de cinco famílias e uma igreja. Acredita que a informação precisa ser plural, inclusiva e abrangente, contemplado o povo de um país. De nada adianta o eleitor acreditar nisso se o próprio governo não acredita. E também de nada vai adiantar se sua militância não consegue estabelecer diálogo com o povo porque não consegue ter empatia com ele.


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