Se você observar os temas abordados nas redes sociais dos políticos do Amazonas, seja nas Câmaras Municipais, Assembleia Legislativa, Câmara Federal e Senado, em 99% dos casos não vai achar absolutamente nada que tenha a ver com os problemas da sua vida. Faça um pequeno passeio e veja por conta própria.
A verdade é que nossa classe política se tornou uma casta descolada da realidade, onde a vida deles é um universo em si, no qual vivem apenas para se exibir para sua plateia particular, tal qual muitos influenciadores digitais da internet. O problema é que eles são servidores públicos, pagos obrigatoriamente para saber e atuar em prol dos NOSSOS problemas.
O melhor exemplo pra verificar isso é no dia mais trágico da história da nossa cidade. No dia 15 de janeiro de 2021, no dia seguinte ao início do colapso do oxigênio da capital que chocou o planeta Terra, sabe quantas menções ao problema existem no site da Câmara Municipal de Manaus? Zero. Na época, o hoje presidente da CMM tinha uma outra e mais urgente missão: definir alterações no calendário esportivo da cidade.
Mesmo dias depois do colapso do oxigênio ganhar as manchetes pelo mundo e com média de mortes diárias em Manaus de mais de 200 pessoas por dia, o vereador Raiff Matos (DC) tinha outra prioridade: ingressar no dia 18 de janeiro daquele ano com pedido de esclarecimento, junto ao Conselho Municipal de Educação (CME), sobre a Resolução que trata da inclusão do tema diversidade sexual e de gênero nas escolas municipais. A fixação do vereador em perseguir LGBTQIAP+, aliás, é um caso à parte. Se a fumaça que encobre Manaus fosse colorida, provavelmente ele já teria resolvido o problema.
Entre os dias 05 e 07 de outubro, quando a qualidade do ar de Manaus foi considerada uma das três piores do planeta, o site da Câmara Municipal só registrou UM ÚNICO post falando sobre o problema das queimadas. E absolutamente nenhum questionando as ações do governador do Estado, responsável pela política ambiental da região metropolitana.
Tal qual influenciadores, eles acreditam que não devem satisfações a ninguém. A deputada Joana Darc (União Brasil), por exemplo, faltou votações importantíssimas na Assembleia Legislativa do Amazonas em julho deste ano. Motivo: participar do cruzeiro WS On Board, promovido pelo cantor Wesley Safadão. Questionada sobre os protocolos de presença, ela simplesmente não os apresentou até hoje.
Em Brasília, a situação não é diferente. Há anos o senador Plínio Valério (PSDB-AM) entrou em uma cruzada de desinformação ambiental e ataques a Organizações Não Governamentais (ONG’s) de defesa do meio ambiente que rende situações constrangedoras. A pauta da CPI que trata do assunto, meses depois de instalada, não consegue sequer apontar um dado material de investigação.
Mais recentemente, o deputado federal Amom Mandel (Cidadania-AM) se destacou por desrespeitar jornalistas ao dizer que “na maior parte do tempo só lê os jornais mais importantes”, já que, segundo ele “é difícil acompanhar os menos relevantes”. É difícil interpretar o quão preciso é o seu julgamento sobre o que é relevante ou não, uma vez que ele não viu relevância em divulgar para o público que votaria matéria sobre regulação das big techs integrando uma bancada ligada a um grupo financiado por elas.
Em todo caso, sua obrigação não é ser ombudsman, é deixar a sua numerosa equipe em Manaus (a qual conheci quando ele me convidou para ser seu consultor) de prontidão para monitorar todos os assuntos de interesse público que a imprensa divulga. Afinal, se ele não se pautar por notícias, como poderá atuar? Ou simplesmente vai ignorar denúncias como, por exemplo, a compra do governo do Amazonas de um software espião? Ou quando o governo deixou de acionar a União por conta da estiagem?
E essa postura se reflete na forma como eles lidam com a máquina pública. Seja no legislativo, seja no executivo, via de regra, as ações são sempre para pautar a própria produção de peças publicitárias. Quando o prefeito, por exemplo, pinta a cidade como se fosse um enorme quadro do Romero Brito, é para dar a sua marca, não porque isso a torna melhor. É a realidade deles, para eles, sobre eles.
O fato é que nossa classe política ainda não compreendeu o que de fato são: servidores públicos. E como tal possuem as mesmas obrigações, em especial seus princípios: Legalidade, Impessoalidade, Moralidade, Publicidade e Eficiência. Exatamente se colocam ou à parte da sociedade que os paga ou, em alguns casos, acima dela.
Nossos nobres parlamentares devem ficar atentos ao fato de que possuem uma semelhança e uma diferença dos famosinhos da internet. A semelhança é que tal qual influenciadores, eles também passam quando a moda passa. A diferença é que possuem data de validade para passar: as eleições. E aí as informações que existem na imprensa, ignoradas ou não por eles, vão pautar aquele que decide: o cidadão.
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