Engrenagens Humanidades

Como influenciadores lucram com abusos contra animais

Estudo publicado na revista “Biological Conservation” mostra que vídeos como os da capivara Filó são extremamente lucrativos. E problemáticos

Em maio deste ano, o caso da Capivara Filó causou polêmica em todo o país. Enquanto parte da opinião pública defendia o contato do influenciador digital Agenor Tupinambá defendiam os vídeos onde o animal era exposto, especialistas alertaram que esse tipo de prática pode ser extremamente prejudicial ao meio ambiente e aos próprios bichinhos. E o pior é que esse tipo de vídeo é comum e muito lucrativo.

Um estudo inédito publicado recentemente na revista “Biological Conservation” revela que criadores de conteúdo digital lucraram em torno de 1,14 milhão de dólares com abusos contra animais em vídeos patrocinados. O levantamento mapeou mais de 50 horas de 411 vídeos de abusos contra animais no Youtube de 39 países entre abril de 2022 e agosto de 2023. Alguns deles somam mais de 880 milhões de visualizações.

Os pesquisadores também calcularam o valor de marketing para influenciadores desse tipo de vídeo, fazendo uma estimativa da monetização em dólares gerada pelas visualizações do material. A categoria de conteúdo que mais gerou monetização foi a de vídeos de uso de animais silvestres como pets, que somam lucro de cerca de 730 mil dólares.

Sofrimento oculto

Embora a maioria dos vídeos sejam de crueldade explícita, como caça com equipamentos violentos, esmagamento de animais para prazer sexual, resgates encenados, abates para festivais religiosos, outros são mais sutis, onde o sofrimento do animal não é perceptível, mas existe. Como aconteceu com a capivara Filó.

O maior prejuízo para os animais é a perda dos mecanismos de sobrevivência, que evoluíram com a espécie ao longo de milhões de anos. “O animal silvestre não está vivendo em suas plenas condições e em seu ambiente natural. Retirar o animal da natureza e tentar domesticá-lo prejudica seu comportamento e o torna menos apto a encontrar alimento, se defender de predadores, de se acasalar e de proteger seus filhotes – para mencionar o mais básico”, explica o biólogo Antônio Carvalho, líder da pesquisa.

Além disso, muitos animais, como Filó, perdem o bem mais básico para todos os seres vivos: a vida em liberdade. “Esses animais passam a vida inteira repetindo padrões forçados pelos influencers e são, muitas vezes, descartados quando não são capazes de “engajar” com o público – ou seja, não convertem horas de filmagens e edição em ganhos monetários aos criadores de conteúdo digital”. Vale lembrar que, desde a polêmica, não há notícias do animal.

Influência

Há ainda outro problema: a influência que canais de exploração de animais silvestres exerce sobre outras pessoas para replicar a atividade com outros animais. “Essa correlação tem sido alertada por muitas pesquisas recentes, que apontam aumentos expressivos no número de animais traficados em decorrência de “trends” (tendências) de uso de animais silvestres por celebridades da internet”, alerta Carvalho.


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