Engrenagens

MPC-AM denuncia obras do projeto Nosso Centro, em Manaus

Segundo documento do MPC-AM que o Vocativo teve acesso, as obras do Mirante Lúcia Almeida e o Largo da Ilha de São Vicente, no Centro Histórico de Manaus estão acontecendo sem a devida documentação

Duas obras do projeto Nosso Centro, da Prefeitura de Manaus, estão sendo alvo de representação do Ministério Público de Contas do Amazonas (MPC-AM) junto ao Tribunal de Contas do Estado. Isso porque o órgão não identificou licenças que o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM) deveria emitir para os dois empreendimentos. Aliás, eles podem sequer existir.

As obras em questão são o Mirante Lúcia Almeida e o Largo da Ilha de São Vicente, no Centro Histórico da capital. O IPAAM deveria realizar os estudos e emitir a documentação sobre preservação de patrimônio histórico, impacto ambiental e até mesmo risco da estrutura dos locais. Isso não aconteceu até o momento. As obras, no entanto, já começaram.

Em novembro de 2022, a prefeitura anunciou que o projeto do Largo da Ilha de São Vicente estaria na fase de licenciamento junto ao IPAAM, dentro do programa “Nosso Centro”. O imóvel fica localizado na avenida 7 de Setembro, nº 50, com área de 1.894 metros quadrados, na antiga sede da Companhia Energética do Amazonas (Ceam) para a construção do largo.

Ilha de São Vicente. Foto: Dantas Neto / Semcom

Já em março de 2023, a prefeitura anunciou o iniciou as obras do complexo mirante de São Vicente, batizado de Mirante Lúcia Almeida, nome da ex-mulher do prefeito David Almeida (Avante), falecida em 2019. O imóvel fica na mesma avenida em esquina com a rua Visconde de Mauá.

Projeto do Mirante Lúcia Almeida. Foto: Divulgação / Semcom

Segundo o MPC-AM, porém, ambos empreendimentos só possuíam autorização para estudos preliminares, ou seja, os documentos que a prefeitura alega ter para o início das obras simplesmente não foram entregues. Foram expedidos ofícios cobrando explicações do diretor-presidente do IPAAM, Juliano Valente, mas nenhuma resposta foi dada até o momento.

Apenas o Implurb respondeu à requisição do MPC-AM fornecendo informações sobre as medidas tomadas na obra. Segundo o instituto, as obras foram realizadas de forma emergencial para evitar danos devido à precariedade de manutenção do prédio. Ou seja, não há qualquer referência às obras anunciadas pela prefeitura.

Quanto aos dois institutos envolvidos na obra, a situação é pior. Não há qualquer informação sobre a atuação fiscalizadora na obra do IPAAM, responsável por questões ambientais, nem do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que tem a incumbência de preservar o patrimônio cultural.

Ainda segundo a representação, faltam também os pareceres técnicos de outros órgãos federais sobre o projeto, como a Marinha e a Secretaria do Patrimônio da União (SPU). Vale lembrar que o terreno do empreendimento, a margem do Rio Negro e a Ilha de São Vicente, são consideradas de jurisdição da União.

Contrato de R$ 45 milhões e sem estudos

A empresa contratada para executar as obras é a Red Engenharia Ltda. O contrato abrange a reforma do Complexo Mirante de São Vicente, incluindo o prédio do Mirante, a infraestrutura do largo e a reforma da Casa Thiago de Melo. O valor total do contrato é de R$ 45.827.073,92.

O termo de contrato estabelece que seria a própria empresa a responsável pela obtenção das licenças ambientais e de instalação, bem como pela elaboração do Estudo Prévio de Impacto Ambiental (EPIA) e do Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), além dos Planos de Controle Ambiental, entre outros documentos.

Mas, de acordo com o Ministério Público de Contas, até o momento, isso não aconteceu. O que é mais grave: não há evidências de que uma avaliação ambiental prévia tenha sido conduzida, nem de que as licenças necessárias tenham sido emitidas de acordo com as normas federais, estaduais e municipais.

“Essa falta de transparência e de conformidade com a legislação levanta a suspeita de corresponsabilidade entre a empresa executora, a entidade municipal responsável pelas obras (Implurb) e o órgão ambiental (IPAAM) que não cumpriram sua obrigação de fiscalização” afirma o órgão em documento que o Vocativo teve acesso.

Na representação, o órgão destacou a necessidade de uma investigação mais aprofundada para esclarecer as circunstâncias das obras no Complexo Mirante de São Vicente e garantir a proteção adequada do patrimônio histórico e ambiental da região. O MPC pediu ainda ao TCE-AM para aceitar a representação. Caso seja comprovado danos ao patrimônio público, os envolvidos podem ser processados e condenados a indenizações.

Posição dos envolvidos

Até o fechamento desta matéria, o Implurb, o Ipham, a RED Engenharia e a Prefeitura de Manaus não retornaram os contatos do Vocativo. O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) informou ao site por meio de nota que, até o momento, não foi notificado sobre a REPRESENTAÇÃO N.107/2023. Assim que notificado, o Instituto responderá a demanda do Ministério Público de Contas.


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