A atuação profissional e a memória do indigenista Bruno Pereira foram manchadas por declarações do presidente Jair Bolsonaro e do presidente da Funai, Marcelo Xavier. A acusação partiu de Beatriz Matos, viúva de Pereira, que participou nesta quinta-feira (14/07/2022) de audiência pública da Comissão Temporária sobre a Criminalidade na Região Norte.
O indigenista foi assassinado no Vale do Javari (AM) em 5 de junho, ao lado do jornalista britânico Dom Phillips. Os dois estavam investigando a invasão de terras indígenas por pescadores ilegais.
“Gostaria que o presidente do Brasil e o presidente da Funai se retratassem em razão das declarações ridículas que fizeram. O presidente da Funai falou em ilegalidade da presença deles ali. O presidente da República falou coisas que eu me recuso a repetir aqui. Isso não é uma questão menor. É uma questão muito séria”, disse Beatriz.
Ela disse que não recebeu qualquer palavra de condolência do governo brasileiro e criticou a falta de apoio da Presidência da Funai. Por outro lado, agradeceu as homenagens dos povos indígenas e o apoio de deputados e senadores.
Além de Beatriz, a comissão ouviu o líder indígena e ex-coordenador da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) Jader Marubo. Ambos relataram um processo de desmonte das estruturas de fiscalização do Estado na Amazônia: indígenas e servidores da Funai vivem um ambiente de medo e ameaças por denunciarem a atuação do narcotráfico na região, assim como a atividade ilegal de pescadores, caçadores e garimpeiros.
Na opinião do líder indígena, Bruno e Dom morreram por lutar pelos direitos dos indígenas e denunciar ilegalidades na região. Marubo entende que o presidente Jair Bolsonaro é o responsável pelo desmantelamento da Funai e de órgãos de fiscalização e teria, portanto, parcela de responsabilidade pelas mortes.
“Em campanha mesmo, o presidente Bolsonaro falou que iria ceifar a Funai. Hoje, entendemos o que é ceifar a Funai. Eles desestruturou a instituição. Se houvesse uma Funai forte, uma Funai atuante, uma Funai que fizesse o trabalho para o qual ela foi criada, hoje o Bruno estaria vivo”, disse o ex-coordenador da Univaja.
Para Beatriz, que é antropóloga e também atua no Vale do Javari, o governo tem demorado a agir para enfrentar esses problemas. “Que as mortes do Dom e do Bruno sirvam pelo menos para que se construa outra alternativa naquela região. Que seja possível transitar sem sofrer violência”, alertou Beatriz.
Com informações da Agência Senado
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