O mundo está em choque com as cenas de desespero vindas de Cabul, no Afeganistão. Milhares de pessoas estão tentando fugir da perseguição por parte das forças do Talibã, que reassumiu o controle do país no fim de semana, quase 20 anos depois serem expulsas por uma coalizão militar liderada pelos Estados Unidos.
Milhares de civis desesperados para fugir do Afeganistão lotaram o aeroporto de Cabul, nesta segunda-feira (16/08/21), depois que o Talibã tomou a capital, levando os militares norte-americanos a suspenderem os voos de saída de pessoal, no momento em que aumentam as críticas à retirada militar dos Estados Unidos.
Multidões lotaram o aeroporto tentando escapar, incluindo algumas pessoas que se agarraram a um avião de transporte militar dos EUA que taxiava na pista, de acordo com imagens publicadas por uma empresa de mídia. Soldados norte-americanos atiraram para o alto para deter pessoas que tentavam embarcar à força em um voo militar que deveria retirar diplomatas e pessoal da embaixada dos EUA, disse uma autoridade norte-americana.
Cinco pessoas morreram em meio ao caos no aeroporto nesta segunda-feira, segundo reportagens, mas uma testemunha disse que não estava claro se elas foram baleadas ou pisoteadas durante o tumulto. Uma autoridade dos EUA disse à Reuters que dois homens armados foram mortos por forças norte-americanas no local nas últimas 24 horas.
Na imagem mais dramática dos últimos tempos, pessoas tentaram se segurar em aviões que partiram de Cabul. Um vídeo que circula nas redes sociais capturou o exato momento em que uma dessas pessoas cai de uma dessas aeronaves em movimento.
A conquista rápida de Cabul por parte do Talibã ocorre na esteira da decisão do presidente dos EUA, Joe Biden, de retirar as forças de seu país do Afeganistão depois de 20 anos de uma guerra que custou bilhões de dólares. A velocidade com que as cidades afegãs caíram em poucos dias e o temor de uma repressão do Talibã à liberdade de expressão e a direitos das mulheres conquistados ao longo de duas décadas provocam críticas à decisão norte-americana.
Biden está sendo criticado por adversários e aliados, inclusive parlamentares democratas, ex-funcionários do governo e até seus próprios diplomatas pela maneira como tratou da retirada norte-americana do Afeganistão. A essência das críticas está na falta de preparativos do governo dos Estados Unidos, tanto para remover afegãos em risco, mesmo com meses para planejar, quanto por fazer pouco para garantir que alguns progressos nos direitos das mulheres não evaporem da noite para o dia.
O deputado republicano Jim Banks, membro do comitê dos Serviços Armados da Câmara, disse à rede Fox News: “Nunca vimos um líder americano abdicar de suas responsabilidades e liderança como Joe Biden faz. As luzes estão acesas na Casa Branca, mas não tem ninguém em casa. Onde está Joe Biden?” Jim Messina, vice-chefe de gabinete da Casa Branca do ex-presidente Barack Obama, defendeu a decisão de Biden, dizendo que houve um consenso bipartidário segundo o qual era hora de partir.
Ameaçados
Os civis que trabalharam para promover os direitos humanos, além de acadêmicos, escritores, jornalistas e outros profissionais da mídia e pessoas que trabalharam para países estrangeiros temem retaliações do movimento extremista. Membros de minorias étnicas e muçulmanos xiitas, em particular hazaras, também correm maior risco.
“O Taleban tem um longo histórico de abusos ou morte de civis que eles consideram ‘inimigos’”, disse Patricia Gossman , diretora associada para a Ásia da Human Rights Watch (HRW). “Seja de dentro ou de fora do Afeganistão, os governos e escritórios da ONU devem fornecer proteção e assistência aos afegãos em risco e fazer do processamento de documentos de viagem e transporte uma prioridade”. A HRW pede que governos suspendam imediatamente todas as deportações e retornos forçados ao Afeganistão.
Os governos também devem aumentar o apoio a grupos não governamentais dentro e fora do Afeganistão que promovem os direitos humanos, os direitos das mulheres, os direitos da criança, a educação, a saúde e outras necessidades vitais. A entidade pede ainda que seja garantida a participação de grupos da sociedade civil afegã nas discussões sobre assistência e reassentamento.
A HRW pede ainda que o Conselho de Direitos Humanos da ONU em Genebra aprove uma resolução criando um órgão especial para coletar e preservar as evidências de abusos cometidos por todas as partes no conflito no Afeganistão e preparar arquivos para facilitar processos criminais justos e independentes, com a assistência do alto comissário da ONU pelos direitos humanos.
“As partes beligerantes do Afeganistão precisam reconhecer que o mundo está observando e as evidências de abusos estão sendo coletadas”, disse Gossman. “Aqueles que cometem atrocidades podem um dia esperar enfrentar a justiça por seus crimes perante o Tribunal Penal Internacional ou outro tribunal.”
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