Mais de meio milhão de brasileiros morreram em decorrência da Covid-19. A dolorosa marca foi atingida de maneira oficial neste sábado (19/06/21). Oficialmente, a pandemia do novo coronavírus já matou 500.800 pessoas no país.
Mesmo possuindo apenas 2,7% da população mundial, o Brasil concentra 9,7% de todos os casos do planeta e nada menos do que 12,6% de todas as mortes. Pra se ter ideia do tamanho da tragédia, a Índia, o maior epicentro da pandemia no momento, registrando picos de 6 mil mortes diárias, ainda possui uma situação comparativa melhor, uma vez que sua população é de mais de 1 bilhão de pessoas, contra 210 milhões do Brasil.
Mas o pior de tudo é que mesmo essas vidas, esses sonhos, essas histórias, essa cultura e esses amores perdidos são apenas uma parte da tragédia. A pior parte dela também não é não saber a previsão para quando esse horror vai acabar e quem de nós será a próxima vítima. O pior de tudo é saber que não apenas essas mortes eram evitáveis, como foram intencionais. E o responsável principal (mas não o único) tem nome e sobrenome: Jair Messias Bolsonaro.
Claro que estamos em uma pandemia e, sendo assim, pessoas iriram morrer. Não podemos mudar isso. Mas existe uma diferença entre ter baixas em uma guerra e sermos levados para uma carnificina. Desde o primeiro momento, Bolsonaro minimizou a pandemia, ignorou os alertas da ciência, desdenhou do risco, promoveu medicamentos ineficazes contra a Covid-19, sabotou o uso de máscaras e trabalhou ativamente pela disseminação da Covid-19. Seu intuito declarado para quem quisesse ouvir sempre foi que cada brasileiro pegasse a doença, independente do seu desfecho.
Não se pode dizer, porém, que ele não seja coerente. Ele mesmo nunca hesitou em se expor, mesmo quando não existia vacina. Se ele a tomou ou não quando elas foram aprovadas, talvez nunca saibamos. Ele nunca foi homem para admitir publicamente exibindo seu histórico de vacinas.
Todas as informações ditas nos parágrafos acima são de domínio público. 99% delas estão nos perfis pessoais do próprio Bolsonaro. O Vocativo nem sempre registrou todos esses crimes contra a saúde pública porque justamente entende que todos foram cometidos exatamente com a inteção de que fossem divulgados. Bolsonaro sabe, assim como outros líderes de extrema-direita no mundo, que influencia pessoas pelos meios de comunicação. Ele explora o apetite da imprensa por notícias e audiência e o usa para espalhar o vírus.
Que fique bem claro: Bolsonaro sabe de tudo isso. E sabe que, a menos que consiga improvável sucesso em um golpe de estado, terminará seus dias fugindo pelo mundo ou em alguma cela após julgamento no Tribunal Penal Internacional, em Haia. Não há meio termo para ele. E exatamente por isso trabalha desesperadamente para se manter no poder em 2022, da maneira como for necessária.
Exatamente por isso ele não está sozinho nessa tragédia. Ele tem comparsas. A começar pelo Congresso Brasileiro, que assiste a tudo como se não tivesse responsabilidade a respeito. Só que ninguém participa de um crime a troco de nada. Já surgem denúncias de que há orçamentos paralelos – eufemismo para corrupção generalizada – em troca de proteção contra o impedimento.
Ele também conta com o silêncio criminoso da Procuradoria Geral da República, que mesmo diante de sucessivos e flagrantes crimes contra a saúde pública do país e a democracia, nada faz. Fala-se em interesse pela recondução ao cargo ou uma vaga no Supremo Tribunal Federal. Não importa.
Também há conivência das Forças Armadas, que não apenas permitem que militares da ativa participem do governo, incluindo no Ministério da Saúde como permanecem nele diante de uma condução desastrosa. E não bastasse isso, ainda aparece, vez por outra, esses membros ameaçam a democracia. O que significa que ameaçam com armas e violência a nós, cidadãos civis e desarmados.
Ninguém tem responsabilidade pelas mortes de meio milhão de pessoas sozinho. E seria ingenuidade acreditar que a “história fará justiça”. Bobagem. Sociedades, quando mobilizadas e articuladas, fazem justiça. Não sei se um dia teremos capacidade para tanto. Não sei nem se teremos sociedade, uma vez que permitimos todos esses absurdos há anos. Mas é possível que, em algum momento, o Tribunal Penal Internacional reconheça o que aconteceu neste país e faça alguma justiça. Talvez.
Não sabemos se algum dia, os mortos pela Covid-19 terão a merecida justiça. Mas sabemos o que vamos deixar para a história. E quanto a isso, duas coisas podem ser feitas. A primeira delas é o registro. Todos esses atos ficarão registrados, tomando o cuidado de que não sejam arma nas mãos de quem deseja causar mais mortes.
A segunda é a resistência. No que depender de nós, esses crimes serão levados à justiça. Mas para isso, é preciso justamente o registro, é apontar os responsáveis. Não denuncir quem trabalhou pelo espalhamento do coronavírus e teve ajuda nessa empreitada é mentir, é cuspir no túmulo das vítimas da Covid-19. E não faremos isso.
O problema é que isso significa levar muitos para a cadeia. E eles tentarão intimidar quem aponta esses crimes na tentativa de escapar. Muitos, aliás, já estão fazendo isso. Aí reside a batalha das nossas vidas, em nome de todos que morreram por uma doenaça evitável, por culpa de uma política criminosa e assassina.
Antes que eu me esqueça: neste dia, o presidente não lamentou, não decretou luto oficial e não se pronunciou sobre as 500 mil mortes…
Foto: Alex Pazuello
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