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O Snydercut é a chance da Warner/DC corrigir uma injustiça histórica

Quando a DC abraçou a liberdade criativa, teve sucesso, tanto nos quadrinhos quanto fora deles. Quando fugiu disso, meteu os pés pelas mãos

A versão do diretor Zack Snyder de Liga da Justiça, que ficou conhecido carinhosamente como Snydercut, chega ao mundo na próxima quinta-feira (18/03) após uma comovente campanha dos fãs pelo seu lançamento. Essa vitória dos DCnautas corrije uma injustiça histórica. O universo criado pelo diretor merecia um desfecho digno. E talvez até continuar uma continuação.

Senta que lá vem história

O gênero de super-heróis tem se mostrado uma verdadeira mina de ouro para o entretenimento desde o início deste século. Após produções como Homem-Aranha e X-Men acharem o tom comercial certo, misturando ação frenética com boas histórias, o céu tornou-se o limite. Desde então, com o surgimento do Universo Cinematográfico da Marvel e produções de outras editoras, esse gênero mostrou que veio pra ficar e crescer cada vez mais. Mas faltava (e ainda falta) a DC acompanhar o ritmo.

Quando anunciou que sua versão do Superman no começo da década passada, Zack Snyder prometeu criar um universo compartilhado entre personagens da editora. O diretor parecia ser a pessoa certa, porque além de grande fã da DC, tinha o respaldo de sucessos de público (300) e crítica (Madrugada dos Mortos, Watchmen). A promessa era de algo grande, já que o roteiro do filme foi escrito por ninguém menos que Christopher Nolan, diretor da trilogia Cavaleiro das Trevas, que também seria o produtor.

O grande problema de trabalhar com o personagem é que o filme sempre tem a sombra da interpretação marcante de Christopher Reeve em Superman: O filme, de 1977. Superar um dos maiores clássicos do cinema sempre foi um desafio para a Warner/DC. Nenhuma produção em live action conseguiram ter êxito quanto a isso e conquistar os fãs (salvo Smallville, mas isso é pra outro dia). Superman: O Retorno tentou inclusive seguir a mesma história em 2006 e falhou.

Mesmo assim, Snyder topou a empreitada e lançou Homem de Aço em 2013. Embora esteja longe de ser um fracasso de público, o filme também não foi o arrasa-quarteirão que se espera do maior super-herói que existe. A recepção foi fria. Embora muitos atribuam as críticas ao roteiro ou à violência do filme, o mais provável era a ressaca que o gênero passava com o público naquele momento. Um ano antes, as salas foram invadidas por superproduções como Os Vingadores e Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Era a entressafra dos heróis.

Verdade seja dita: o filme foi injustiçado. O Homem de Aço é uma das melhores produções do gênero, explorando a psicologia do personagem e uma trama muito bem construída. O filme acerta ao tornar o Superman vulnerável no mundo real não pela kriptonita, mas pela maneira hostil e marginalizada com que estrangeiros e refugiados são tratados. Snyder deu ao Superman um novo significado. O General Zod de Michael Shannon é ainda hoje um dos melhores vilões de quadrinhos já levados ao cinema.

De qualquer maneira, mesmo sem empolgar, Snyder seguiria na sua saga de criar um universo compartilhado. E qual a melhor forma de fazer isso senão trazendo outro titã para o palco?

Batman vs Superman: A origem do erro

Quando anunciou, em 2014, que o tão sonhado confronto entre o Superman e o Batman chegaria às telas, Zack Snyder causou uma revolução na indústria do cinema. A empolgação foi tanta que fez a Warner/DC seguir a Disney/Marvel e divulgar um cronograma de filmes até 2022. Os fãs enlouqueceram e já imaginavam a quantidade de teorias e debates que se seguiriam por anos a fio. Eis que chegou Batman vs Superman: A Origem da Justiça. E tudo mudou.

O filme sofreu duras críticas pelo seu tom, que muitos chamaram exageradamente sombrio e pela postura depressiva do Superman, que não lembrava em nada o escoteiro cheio de esperança das HQ’s e animações. Pessoalmente, não acho que BVS seja um filme ruim. E não, pra mim, o problema não o “momento Martha”. Ou o tom sombrio do filme. Watchmen e Logan são filmes bem sombrios e violentos e são excelentes. O problema não está aí.

BVS é apenas deslocado. A história do conflito não foi bem construída. Afinal, por que havia um antagonismo entre Batman e Superman? Não dá pra entender como o Batman ficou tão abalado a ponto de matar. Também não faz sentido o maior detetive dos quadrinhos ser tão facilmente manipulado pelo Lex Luthor ao longo de todo o filme. A desesperança do Superman também não faz sentido. O mais correto teria sido fazer mais um filme do Superman e um do Batman antes da briga. Ou fazê-la depois do filme da Liga, quem sabe…

Pense no seguinte exemplo: se o universo da Marvel começasse com Vingadores: Guerra Infinita, você gostaria do filme do mesmo jeito? Definitivamente não. Provavelmente acharia uma enorme bagunça, não entenderia nada e odiaria o filme, por melhor que ele seja. Não que BVS seja tão bom quanto, mas sem uma construção adequada, a melhor das histórias fica perdida e confusa.

A má recepção de BVS causou problemas na produção de Liga da Justiça. Ainda não se sabe ao certo o que aconteceu, se foi a interferência de executivos da Warner, o trágico suicídio da sua filha Autumn ou ambos, mas Zack se afastou das filmagens. Elas então foram entregues ao diretor Joss Whedon (Vingadores, Vingadores: Era de Ultron). O resultado foi o catastrófico filme da Liga de 2017, que sepultou as chances de um universo compartilhado da DC, que é a grande injustiça a que me refiro.

A virada

A sensação que ficou era de algo bom sendo jogado fora. E estava mesmo. Apesar dos problemas, o Snyderverso está longe de ser terra arrasada. E, sinceramente, é difícil imaginar que sua versão da Liga seja tão ruim quanto o Frankenstein de Joss Whedon. Após anos de pressão e mobilização na internet, a Warner aprovou a ideia e em 2020 decidiu lançar o Snydercut. Mas, por que parar por aí?

Ora, os fãs da DC sempre quiseram e continuam querendo um Universo que una esses personagens. Ao mesmo tempo, há tantas possibilidades de histórias que não podem ser desperdiçadas. Por que não unir o útil ao agradável? Um universo coeso e interligado como o da Marvel sempre é garantia de diversão. É o modelo deles. Dá certo e não há motivo para não continuar. Sendo assim, por que a DC não pode ir na direção oposta e abraçar múltiplas histórias? Já falei inclusive sobre isso aqui.

Já temos em produção um filme do Batman de Matt Reeves com Robert Pattinson, que parece ser muito bom, mas por que não ver um pouco mais de Ben Affleck com o manto do morcego? Aliás, circulam na internet supostos vazamentos de roteiros das continuações de Liga da Justiça que são empolgantes. Vale lembrar que a trama sempre foi pensada para uma trilogia.

O grande erro da DC foi tentar copiar a Marvel. Suspeito que foi por isso que tenham trazido justamente o diretor do primeiro Vingadores pra tentar “salvar” o filme da sua grande equipe de heróis. Foi um fiasco completo. O segredo não está em não errar, mas em aprender com os erros. Se a Marvel desistisse da sua fórmula quando foi criticada em Homem de Ferro 2 e Thor, nunca teríamos visto Ultimato. Ela simplesmente corrigiu sua filosofia de trabalho e hoje colhe os frutos.

O caminho iniciado por Zack Snyder em 2013 era muito promissor e merecia ter sido apoiado após Batman vs Superman, não boicotado. Nos quadrinhos, uma das maiores marcas da DC é a vanguarda. Watchmen, de Allan Moore e O retorno do Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller são obras primas dos quadrinhos fruto da liberdade criativa que a editora sempre deu aos seus artistas. E quando isso foi para o cinema, deu muito certo. Christopher Nolan, por exemplo, teve liberdade total e hoje a sua trilogia do Batman é cultuada.

Talvez a DC só precise de uma direção criativa mais profissional, algo que possa auxiliar Snyder na construção desse projeto. Alguém que estaria para a DC como Kevin Feige está para a Marvel: a mente criativa que organiza. Com a diferença que não haveria necessidade de interligar tudo. Deixa o Snyderverso existindo, enquanto outros diretores trabalham e outras direções. Que tal?

Quando a empresa abraçou a liberdade criativa, teve sucesso, tanto nos quadrinhos quanto fora deles. Quando fugiu disso, meteu os pés pelas mão e tomou um enorme prejuízo. Talvez seja hora de abraçar a vanguarda de novo. Que o Snydercut seja o sucesso que motive essa virada. Nós, fãs, merecemos.

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