Uma manifestação no Chile, que acabou com duas igrejas incendiadas trouxe de volta uma das maiores falácias da extrema-direita brasileira: a cristofobia. Afinal, com uma pandemia descontrolada que já matou mais de 150 mil brasileiros, economia em queda livre, mais de 14 milhões de desempregados e escândalos de corrupção a cada semana, só resta aos apoiadores do presidente Bolsonaro apelar para fantasmas de cunho moralista para tentar dar alguma justificativa ao seu governo.
Pra contextualizar, houve um protesto que reuniu milhares de chilenos na praça central de Santiago neste domingo (18). A ideia era lembrar os protestos em massa que deixaram mais de 30 mortos e milhares de feridos um ano atrás. Além disso, muitos portavam cartazes e faixas caseiras com as cores do arco-íris pedindo um sim no referendo do próximo domingo (25), que perguntará se a população quer descartar a Constituição dos tempos da ditadura – uma das exigências nos protestos de 2019.
Inicialmente pacíficas, as manifestações saíram do controle e culminaram em tumultos, saques e no incêndio da Igreja da Assunção, nas proximidades da Praça Itália em Santiago, e a capela dos Carabineiros San Francisco de Borja. As duas igrejas funcionavam como centros de tortura e inteligência da ditadura de Pinochet, o que teria motivado os ataques dos manifestantes.
As imagens correram o mundo e estão sendo usadas por militantes de extrema-direita no Brasil para ilustrar o que chamam de “cristofobia”. O termo não é novo e foi cunhado por pastores e políticos de bandeira religiosa que denominaria um tipo de preconceito contra cristãos no Brasil. Esse preconceito estaria em sátiras de símbolos e práticas religiosas promovidas por homoristas como o Porta dos Fundos ou no carnaval e principalmente na impossibilidade de criticar a homossexualidade, o que configura crime de homofobia.
Não é preciso ser muito inteligente pra perceber que “cristofobia” simplesmente não existe. Afinal, mais de 90% da população brasileira é cristã. Logo, seria muito estúpido imaginar que 10% poderiam oprimir o restante da população. Além disso, satirizar Jesus, por exemplo, pode ser classificado como “pecado” pelas pessoas que seguem ou concordam com tal prática da fé cristã. Para quem não segue o cristianismo, Jesus não é uma figura sagrada e pode ser satirizada. Afinal, temos liberdade de nos expressar. E como o estado brasileiro é laico, a legislação do país é laica e não dá imunidade de críticas a nenhum símbolo ou personagem religioso.
Mas, embora os inteligentes não caiam nessa idiotice, restam sempre os desonestos e oportunistas. Não é um fato recente que há grupos religiosos constituídos que desejam impor um estado teocrático no Brasil. Alguns por puro fanatismo religioso, com desejo de que sua visão particular de cristianismo simplesmente vire lei, seja porque uma teocracia seria perfeita para o mercado riquíssimo da fé, onde pastores faturam bilhões e se elegem para cargos públicos vendendo curas falsas ser ser incomodados pela justiça. Mas agora, há uma nova utilidade para a tal “cristofobia”: salvar um governo zumbi.
Desde o incidente em Santiago, bolsonaristas vem tentando criar uma narrativa que os protestos “são coisa da esquerda, ela é contra o cristianismo, por isso queimou igrejas lá e assim a esquerda aqui tentará a mesma coisa”. Absurdo após 14 anos de esquerda no poder, não? Pois é. Mas estrategicamente é o que sobra.
Que Bolsonaro simplesmente não governa e apenas tenta se segurar no cargo isso é nítido. A aliança com o Centrão e a tentativa desesperada de encontrar um meio de financiar um programa de transferência de renda para manter uma já fraca popularidade são os maiores sinais disso. A pandemia está descontrolada, já matou mais de 150 mil pessoas e continuará matando enquanto o coronavírus quiser, se depender do governo. Não há plano pra salvar a já moribunda economia e o desemprego e a fome já batem à porta. Resta combater fantasmas que só existem nessa narrativa. Por isso é tão importante deixar as coisas claras.
Intolerância religiosa infelizmente é real, ainda que não seja um flagelo exclusivo dos cristãos. Em diversas partes do mundo, muçulmanos, Bahá’ís, judeus (vide holocausto), cristãos e outros grupos são duramente perseguidos. Só que, no Brasil, se existe intolerância contra alguma fé, não é contra o cristianismo, mas sim contra as religiões de matriz africana, muitas vezes promovida por cristãos. E não se trata de um vídeo satírico ou uma fantasia de carnaval, mas de violência física e discriminação reais, verificáveis por estatísticas e boletins de ocorrência.
Queimar igrejas, errado o quanto seja porque representam a fé alheia, não significa que a cristofobia é real, porque ela simplesmente não é. Qualquer religioso que se sinta ofendido com um especial do Porta dos Fundos ou um bloco de carnaval tem o direito constitucional de protestar, cancelar assinatura do streaming que veicule o vídeo ou simplesmente não assistir.
É preciso destruir essa narrativa mentirosa porque ela alimenta setores perigosos da sociedade que acham que tem o direito de impor sua visão distorcida e doentia da fé aos outros e também porque vai servir de cortina de fumaça de um governo incompetente e corrupto. A fé cristã é parte importante da cultura brasileira. Isso é inquestionável. Justamente por ser tão importante não pode servir de arma na mão de escroques.
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
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