Provocativo

Nem herói, nem vilão: apenas um homem com contas a acertar

É muito flagrante o sentimento passional das pessoas pelo ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Há os que amam incondicionalmente por achar que ele representa a maior esperança do povo mais pobre, há os que odeiam por enxergar nele um traidor que se vendeu e se tornou um dos corruptos que jurava combater e também há os que não o suportam por puro preconceito de classe e origem. A confirmação de sua pena ontem vai apenas deixar mais nítida esse fenômeno social.

Não há como negar que Lula é uma das figuras mais proeminentes da história do Brasil. Um dos líderes sindicais mais combativos da história da redemocratização brasileira, foi candidato a presidente mesmo com pouca escolaridade. Passou anos tentando atingir seu grande sonho. Em 2002 conseguiu. Sem dúvida seu governo fez por diversos segmentos uma série de benefícios e reformas que eram necessárias para a melhoria da qualidade de vida de muitos que antes eram desassistidos.

A maior distribuição de renda entre a população mais pobre, o maior acesso à educação e saúde, e inserção de minorias em setores da política antes intransponíveis foram alguns de seus feitos. A abertura do capital brasileiro a economias de países periféricos evitou que nossa economia entrasse na crise de 2008. Você até pode questionar a eficácia ou se esses feitos poderiam ser maiores, mas eles passaram a ser uma realidade com Lula. Ponto.

Isso explica a admiração e respeito de muitos, o que deve ser entendido. Por outro lado, a decepção e a raiva de outros também não é gratuita…

Seu mérito na história não deve e nem será apagado. Da mesma forma sua responsabilidade por uma série de problemas que sua administração mostraria mais tarde também não podem. Bem como seus crimes. O aparelhamento do Estado criou uma indústria paralela de propina e de corrupção que depredou a maior multinacional da América Latina, a Petrobrás, dentre outras instituições. Em seu governo, todos os presidentes do alto escalão foram afastados por corrupção. Os mais proeminentes foram condenados pelo STF.

Agora, ao que tudo indica, a cadeia aguarda Lula.  Se isso será um capítulo final na sua história, só o tempo dirá. O fato é que, apesar de movimentar paixões, Lula precisa começar ser tratado como é: apenas um homem. Como todos nós, tem seus méritos e realizações, mas que não pode escapar da justiça caso esteja em falta com ela.

O maior problema até aqui é justamente essa visão maniqueísta e exagerada: ou se trata Lula como um herói quixotesto ou como como um vilão de quadrinhos. Nem um, nem outro. Aliás, é exatamente essa a lição a ser tirada de todo esse capítulo: fantasiar em cima de uma figura humana é extremamente perigoso. A democracia e a construção de uma nação justa é um trabalho constante de todo o seu povo.

Pode parecer uma cínica ironia, mas é como diria o marxista Bertolt Brecht: “Infeliz a nação que precisa de heróis”.

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